Algumas considerações sobre a Virada Cultural de 2013

Crédito da foto: guiadasemana.com

“Não é a primeira vez que “pipocam” notícias sobre bizarrices na Virada Cultural paulistana, desde a sua primeira edição. Assaltos, estupros [sim, estupros], atentado ao pudor, consumo de álcool e drogas, brigas entre gangues e arrastões, só pra resumir.
Isso não é pontual. É sintomático.
O que ocorreu na Virada Cultural de ontem e nas edições anteriores, em maior ou menor escala, faz parte de um processo longo, caracterizado, entre diversos fatores, pela destruturação familiar, destruição do sistema educacional e, no cerne, a lógica capitalista,a luta de classes.
Como se sabe, na Virada Cultural existem várias atrações e as mesmas reunem pessoas dos mais variados tipos, das mais variadas “tribos” e, acrescente-se, de outros países.I – Da desestruturação familiarÉ notória a grande quantidade de adolescentes em determinados eventos, consumindo altas quantidades de álcool e drogas dos mais variados tipos. Sim, isso tem influência direta em boa parte das casualidades. Ah! Que fique registrado: não eram apenas adolescentes de periferia, negros, pobres, “sem educação”: a burguesia, branca e “instruída” se fez presente, ora envolvida nos conflitos, ora assistindo de camarote – e se deliciando. Desestruturação familiar não é “coisa de pobre”. Não deve ser tomada apenas do ponto de vista material, economicista: trata-se da elaboração e compartilhamento de valores que permitam, de forma combinada, a vida em sociedade. Uma família rica pode ser tão desestruturada e problemática quanto uma família pobre.

II – Da aniquilação do sistema educacional

Como se sabe – não através da mídia burguesa, fascista, racista, prostituída -, há décadas que a educação pública não recebe um investimento substancial, concreto. Por que a referência à escola pública? Porque não é através do setor privado, especificamente, que um país demonstra real desenvolvimento. É na qualidade da educação pública, da saúde pública, da segurança e transporte públicos que um país demonstra o quanto está desenvolvido.
“Escolas de lata”; salas de aula lotadas, ausência de bibliotecas e laboratórios; materiais didáticos obsoletos e/ou tecnicamente pobres; professores sobrecarregados pela quantidade de aulas; professores desestimulados, despreparados e/ou descomprometidos com a carreira; grades curriculares que podem não contemplar determinadas sociais; salários irrisórios, violências das mais diversas e um desconhecimento ou completo descaso da sociedade em relação ao que realmente ocorre dentro dos muros da escola.
Qual é o tipo de educação que nós, enquanto sociedade, estamos fornecendo às crianças e adolescentes? Qual é o estímulo que professores, verdadeiramente comprometidos com o trabalho, terão num cenário como esse? Qual é o estímulo que um aluno terá para aprender algo num ambiente como esse? O professor não vai salvar o mundo com um giz e um apagador. Os alunos, por mais dedicados que sejam, terão sua formação comprometida (arruinada) por uma estrutura ideologicamente preparada para que o status quo seja mantido.
Isso é a “pedagogia da aniquilação”.

III – As “invasões bárbaras”

O condomínio fechado, o palacete cheio de câmeras e seguranças.
A favela, aberta como uma ferida e infeccionada ora pelo descaso, ora pela truculência estatal.
O carro importado, com ar condicionado, blindado.
O ônibus cheio de pessoas espremidas, o calor ou frio, o cheiro de suor, passagem cara.
A mpb e a música “erudita”, de “gente culta”, “civilizada”, “bem comportada”.
O funk, coisa de “gente vulgar”, “gente feia”; as batidas, os vocais desafinados, as coreografias “bizarras”, o erotismo, a “pornografia”.
Aquele que sempre teve tudo, aquele que nunca teve coisa alguma.
Aquele que tem visibilidade, aquele que é invisível.

O que seria uma proposta de aglutinação e interação tornou-se a manifestação da barbárie em um de seus estados mais puros. “Maloqueiro contra maloqueiro”, “maloqueiro contra buguês”, “maloqueiro contra burguês contra maloqueiro” e “burguês contra burguês”, também.

Isso remete ao trecho de duas músicas, uma de autoria do Metallica e outro dos Racionais Mc’s:

“Are we the people some kind of monster? This monster lives”

(Somos nós, o povo, algum tipo de monstro? Este monstro está vivo)

- Metallica, “Some Kind of Monster”
________

“Quem se habilita a lutar? Fome grita horrível
A todo ouvido insensível que evita escutar
Acredita lutar, quanto custa ligar?
Cidade em chama, vida que se vai por quem ama
Quem clama por socorro, quem ouvirá?
Crianças, velhos e cachorros sem temor”

- Racionais Mc’s, “Mil faces de um homem”

POR: JOMO OLIVEIRA CAMPOS

Regina Maria da Silva

Professora (Prefeitura de Santo André/CEQ Educacional/Aliança Educacional ABC), Graduada em Pedagogia e Ciências Sociais, Especialista em Magistério do Ensino Superior, Mestra em Educação: História, Política, Sociedade e Pós-graduanda em Educação Infantil e Políticas de Promoção da Igualdade Racial na Escola http://www.igualdadenadiversidade.blogspot.com.br/ Twitter: @educdiversidade Facebook: https://www.facebook.com/pages/Igualdade-na-Diversidade/109034675872488

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