Apropriação Cultural

 

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Por Buia Kalunga

Vamo falar da tal da APROPRIAÇÃO CULTURAL então? Tema polêmico e complexo. Tão complexo que dessa vez eu não consegui o resumo das idéias. Então vamo de textão mesmo.

Começo com alguns exemplos:

TARZAN: O rei da selva branco que conhece melhor a floresta do que os próprios pretos em terra natal. Ele, que veio de fora, sabe falar melhor com os animais do que os próprios africanos que estão lá de milianos.

INDIANA JONES: Um branco que viaja pelo mundo roubando riquezas de povos não-brancos e sai como o “aventureiro” da história.

O ÚLTIMO SAMURAI – O branco que é discriminado quando chega no Japão e depois se torna o principal guerreiro do rolê.

ROCKY BALBOA – O branco que vira o melhor boxeador de todos numa época em que a grande maioria dos boxeadores era negra.

CLEÓPATRA – A rainha egípcia branca como a neve num lugar onde só tinha preto naquele sol de 40 graus.

JESUS CRISTO – O revolucionário que também conseguiu milagrosamente nascer branco num lugar onde só tinha preto e ser o diferentão abençoado do rolê.

Durante a vida inteira eu absorvi isso tudo sem qualquer tipo de questionamento. Não ligava pra esse papo de raça e, das poucas vezes que liguei, logo aparecia um “somos todos iguais” pra me tranquilizar. Pra mim fazia todo sentido aquela frase do Falcão, do Rappa: “cor da pele foda-se”…

Só que, aos poucos, por diversas fitas que eu vivenciei, fui percebendo que essa postura me fazia ser insensível com a questão racial no mundo e que o bagui não era tão simples. Me permiti olhar pra cor da pele das pessoas, pro cabelo, pros traços. Pras culturas. Reparei que em alguns lugares tem mais preto, outros têm mais branco. Deixei de lado o “foda-se”. Percebi que, de “foda-se” em “foda-se”, as pessoas vão menosprezando uma série de questões ainda mal resolvidas entre nós… e que assim caminha a humanidade: cheia de “foda-se”, cheia de si, caminhando pro vazio…

Talvez, se não vivêssemos num mundo racista, nenhum desses exemplos que eu citei aqui seria problema. Eu encararia todos eles com a maior naturalidade, abraçaria o discurso da igualdade se a recíproca também pudesse ser verdadeira. Se os não-brancos também estivessem circulando pelo topo do topo.

Só que…

Imaginem se o THOR fosse preto? Se o HÉRCULES fosse preto? Ou se o SUPERMAN fosse um chinês? Se o SHERLOCK HOLMES fosse um indiano? Certamente causaria estranhamento. Basta lembrar do buxixo que foi quando lançaram o último Star Wars.

Essa que é a treta. Branco sempre teve essa “permissão” social pra ser o que quiser, pra usufruir da cultura que quiser e moldá-la de acordo com seus interesses. Construiu isso ao longo dos séculos de uma forma nada amigável.

Sendo assim, acho interessante estar vivendo num tempo em que a presença de pessoas brancas na cultura preta esteja em debate.

E vejam, tô falando de debate mesmo, não de decretar quem pode ou não pode estar no rolê. É cartas na mesa, bora trocar essa idéia. Papo de reorganizar a bagunça colonial que nos foi empurrada guela abaixo. De pisar devagar em terreno alheio. De respeito. De não repetir os mesmos erros já cometidos.

Tô suave de ficar cobrando branco de turbante aleatoreamente na rua. Nem sei se é real o caso da mina aí que ficou famosa agora no face por causa dessa polêmica, mas sei que coisas assim acontecem. Sinceramente, acho uma tática nada produtiva pra luta antiracista. É invasivo, superficial, deselegante. Me soa como uma atitude desesperada de quem quer se aventurar na militância.

Até porque, se é pra falar de turbante, nem todos eles são africanos. E nem todX pretX “empoderadX” usa turbante. Nem todX pretX “empoderadX” vai “lacrar” no rolê, nem todXs usam cabelo black, ouvem rap, ou funk, ou são do candomblé, ou falam “axé”… Percebem? Existe uma caricatura da negritude aqui no Brasil. Isso é um subproduto do racismo, que cria esses guetos culturais, lugares preestabelecidos. Só que ser pretX envolve diversas outras possibilidades. A África é diversa, o povo preto é diverso, a cultura preta é diversa.

Quanto ao povo branco… Ah…

Dear White People… na moral? Falta sensibilidade da parte de vocês. Falta respeitar a dor do outro, falta empatia com a questão racial, falta solidariedade, olhar sincero, entendimento… Falta humildade pra reconhecer privilégio. Falta, se pá, uma boa dose daquele remedinho caseiro famoso, o tal do Semancol.

Não dá pra achar que, depois de quase 400 anos de escravidão no Brasil, o povo preto seja dócil e acolhedor o tempo todo. Entendam a responsa que é lidar com a cultura preta nesse país. Estamos falando de pessoas. Da maioria da população. A cultura é produção humana, é feita por pessoas… Se quiser chegar e ser bem chegado, vai ter que lidar com elas e com todas as contradições que carregam.

Acho leviano ouvir música preta, vestir roupa de preto, dançar dança de preto e lavar as mãos quando aparecem as tretas que envolvem a existência do povo preto nesse mundo. “Ligar o foda-se”…

Mais respeito é o que eu peço neste momento. Bora entender o todo, não só a parte. Bora discutir APROPRIAÇÃO CULTURAL sim, mas bora repensar as prioridades. Bora repensar esse mundo loko, bora intervir nele. Constantemente. Que cada um de nós tenha a liberdade de ser o que quisermos, de vestir a roupa que mais gostamos, de ouvir o som que mais nos agrada. Mas que essa não seja AQUELA liberdade… Aquela velha burguesa, mesquinha, embriagada de “foda-se” e incapaz de perceber a si mesma e o que está à sua volta. Que nossa liberdade seja plena. Que seja parte do todo. Que não termine onde começa a do outro, mas que ela faça da liberdade do outro uma extensão dela própria.

Sejamos!

Rafaela Araújo

Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Paulista e integrante do Grupo KILOMBAGEM

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2 Resultados

  1. Kleber disse:

    Falta de empatia mesmo.

  2. Concordo sobre a apropriação cultural,dado que essa visão inversa deturpada dos espaços de não brancos foi um legado do imperialismo europeu,que sempre viam o mundo a partir da Europa.

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