Apropriação Privada do Conhecimento e outras histórias

José Evaristo Silvério Netto

Nos encontramos em um momento na história da humanidade onde a crise nos setores da sociedade é evidente. O colapso no setor educacional, considerando os aparelhos públicos de escolarização, estão expressos na luta dos professores e demais profissionais da educação por melhores condições de trabalho e de vida. Não só o setor educacional, mas quando pensamos na sociedade como um todo, percebemos vários processos de ruptura da nefanda ordem social.

Protesto dos professores em São Paulo.

Entendo que o capitalismo e o racismo estrangulam as sociedades exploradas do planeta, e nesta conjuntura ampliando e intensificando a exploração e a geração de riquezas para compensar a crise mundial do sistema monetário. A exploração se dá de forma muito ampla e complexa, por meio dos diversos aparelhos de controle social do Estado e das industrias que detêm o controle dos processos políticos e sociais da humanidade. Uma face importante desta exploração se dá através apropriação privada do conhecimento humano, onde a lógica do capital tenta se vestir de leis da natureza, de modo que o senso comum perceba as expressões do racismo e do capitalismo como fatos naturais na história da humanidade. Assim, todos os aparelhos “oficiais” de produção de cultura e conhecimento em alguma medida dialogam com esta lógica, produzindo e reproduzindo o racismo e suas desigualdades, dentro do processo já mencionado acima, descrito por Roberto da Silva, quando discutindo sobre as bases científicas da Pedagogia Social (consultar livro: Pedagogia Social – Roberto da Silva, João Clemente de Souza Neto, Rogério Adolfo de Moura (orgs.). — São Paulo : Expressão e Arte Editora, vol. 1. 2ª edição, 2011).

De certa forma, a Apropriação Privada do Conhecimento trata do modo como as industrias constroem a realidade (a nossa realidade – como uma “matrix”) a partir dos produtos que vendem, de modo a não permitir aos explorados SER (expressão livre do espírito em comunhão com as identidades étnicas e humanas, por exemplo) sem possuir estes produtos. Tão forte é a penetração desta lógica nos nossos espíritos, que mesmo as teorias que problematizam o racismo e a lógica do capital, ainda assim continuamos presos à necessidade de comprar, de possuir estes produtos. A lógica do capital, o racismo, e seus resíduos valorativos e judicativos se imbricam na nossa estrutura afetivo-emocional; orientam a construção da nossa estrutura cognitiva, e tornam-se lócus interno da percepção da causalidade da nossa motivação e ação.

As industrias do setor alimentício forjam a realidade e a verdade que pretendem para nós a partir da manipulação dos nossos sentidos gustativos desde quando nascemos, ou até antes disso, “normatizando” e ajustando-nos para entender a realidade a partir do que oferecem de estímulos, de parâmetros valorativos, e de conhecimento sobre o mundo, transformando-nos finalmente em consumidores vitalícios. Da mesma forma, as industrias do olfato, do tato, da visão e audição, que se apropriam das nossas possibilidades de compreensão da realidade para, uma vez nos fazendo consumidores programados, manterem a lógica da exploração e do poder. Somos vítimas deste processo antes de tomarmos consciência do mundo que nos rodeia, e, talvez por isso seja tão difícil descortinar este esquema do qual somos peças fundamentais. Aqui, os conceitos de REVOLUÇÃO e de EMANCIPAÇÃO têm muita importância, mas sobre estes cabe outro texto, com outra orientação. (Neste texto, busco opinar, dentro das minhas possibilidades, sobre a condição de explorados pelo processo de Apropriação Privada do Conhecimento perpetrada pelas industrias e os aparelhos ideológicos do Estado).

A grande responsável pela sedimentação e consolidação deste processo perverso de Apropriação do Conhecimento pelo Capital, nas figuras das industrias que privatizam os sentidos Humanos, são as mídias televisivas. Estas industrias utilizam predominantemente os estímulos audiovisuais, e a LINGUAGEM (ai cabe outra discussão, sobre o papel da linguagem e da língua para a dominação e colonização), para introjetar a ideologia das elites mundiais de modo a estabelecer o controle social necessário para administrar a miséria e gestão do sistema de exploração. As propagandas, os programas de auditório e de outros gêneros, os programas de noticias, as novelas, os filmes, os desenhos, e outras tantas tecnologias desta industria geram uma gigantesca inércia de introjeção ideológica à serviço da lógica do capital e do racismo, dando ares de verdade universal ao conhecimento forjado desde o nosso nascimento (ou antes) pelos estímulos das industrias do palato, do tato, da audição, da visão e do olfato.

Penso que é necessário uma ruptura profunda do tecido social para gerar uma conjuntura social que seja solo fértil para a organização revolucionária do povo. Segundo Roberto da Silva (2011), houve no Brasil uma ruptura que provocou o processo de redemocratização do país, localizando a constituição de 88 como marco normativo. Porém, o professor afirma que esta Constituição Cidadã não significou uma ruptura de carácter revolucionário. Pelo contrário, representou a volta do Estado de Direito, antes fora interrompido pelo golpe militar de 64.

Abaixo faço uma pequena proposição de algo que ainda quero me apropriar.

Uma vez que o racismo tenha sido o motor do capitalismo, e dadas as demandas atuais gravíssimas – genocídio da juventude negra, redução da maioridade penal, racismo institucional, resistência e descaracterização de políticas de ação afirmativa, desapropriações criminosas de comunidades periféricas, crimes do Estado Brasileiro contra comunidades Quilombolas, entre tantas demandas – acredito que a ruptura do tecido social se dará a partir das desigualdades raciais das classes sociais para uma mudança da ordem estrutural da sociedade. O protagonismo dos explorados no processo de radicalização e endurecimento da luta de emancipação deverá levar em conta um projeto político de sociedade que contemple uma outra estrutura de sociedade, onde será possível inclusive implementar outras tecnologias educacionais e, onde a Lei 10639/03 poderá ser encaminhada na práxis, para além do papel.

Campanha Contra o Genocídio da Juventude Negra

Termino aqui esta opinião, mas sinalizando para o que penso ser um caminho interessante (pretendo escrever sobre isso): que a educação precisa passar por um processo de desconstrução dos seus sustentáculos estruturais historicamente forjados pelas demandas das classe dominante, para que seja possível implantar uma educação social – apoiada na Pedagogia Social – que tenha uma orientação política em acordo com a lei 10639/03, uma perspectiva afrocentrada de análise da realidade, e outras fontes de mudanças construturais para a reconfiguração da mente colonizada que possuímos.

José Evaristo Silvério Netto

Graduação em Educação Física pela Universidade Estadual Paulista - UNESP, mestrado em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina. Atua profissionalmente como consultor técnico do Departamento Pedagógico (Núcleo Pedagógico Multidisciplinar) do Grêmio Recreativo Barueri (GRB), e como professor da rede de ensino na Secretaria de Educação de Osasco - SP. Em Barueri, esta à frente dos estudos sociodemográficos envolvendo jovens engajados nas atividades dos Núcleos de Formação Esportiva do GRB. Participa do grupo de pesquisa em Pedagogia Social, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo - FEUSP, onde pretende fazer o doutorado em Educação.

You may also like...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>