ASSATA SHAKUR – “Para meu povo”

Por Assata Shakur (escrita enquanto estava na prisão) 4 de julho de 1973

Tradução: Gilza Marques Tradutores Negros Julho/2015

Texto original disponível em: http://www.assatashakur.org/

assata_shakur

Irmãos Negros[1]e irmãs Negras[2], eu[3]quero que vocês saibam que eu amo vocês e eu espero que em algum lugar nos seus corações vocês tenham amor por mim. Meu nome é Assata Shakur (nome de escrava joanne chesimard [4]), e eu sou uma revolucionária. Uma revolucionária Negra. Isso significa que eu declarei guerra a todas as forças que têm estuprado nossas mulheres, castrado nossos homens e mantido nossos bebês com a barriga vazia.

Eu declarei guerra aos ricos que prosperam com a nossa pobreza, aos políticos que mentem para nós com faces sorridentes e a todos os estúpidos, robôs sem coração que protegem a eles e a sua riqueza.

Eu sou uma revolucionária Negra, e, como tal, sou vítima de toda a ira, ódio e difamação que a amérika[5] é capaz. Como a todos os outros revolucionários Negros, a amérika está tentando me linchar.

Eu sou uma mulher Negra revolucionária, e por causa disso eu tenho sido culpabilizada e acusada de cada suposto crime do qual uma mulher seria acreditada a participar. Os crimes alegados, nos quais, supostamente, somente homens foram envolvidos, eu tenho sido acusada de planejar. Eles pregaram imagens supostamente minhas em postos dos correios, aeroportos, hotéis, carros de polícia, metrôs, bancos, televisão e jornais. Eles ofereceram cinquenta mil dólares em recompensas pela minha captura, e eles emitiram ordens para atirar com mira e atirar para matar.

Eu sou uma revolucionária Negra e, por definição, isso me faz ser parte do Exército de Libertação Negra[6]. Os porcos têm usado seus jornais e suas TVs para retratar o Exército de Libertação Negra como criminosos cruéis, brutais e cachorros loucos. Chamaram-nos de gangsters e prostitutas armadas, e têm nos comparado a personagens como john dillinger e ma barker[7]. Poderia ser claro, deveria ser claro a qualquer um que pode pensar, ver ou ouvir, que nós somos as vítimas. As vítimas e não os criminosos.

Deveria ser claro para nós, ainda, quem são os verdadeiros criminosos até agora. Nixon[8] e seus parceiros do crime assassinaram centenas de irmãos e irmãs do Terceiro Mundo no Vietnã, Camboja, Moçambique, Angola e África do Sul. Como foi provado pelo Watergate[9], os altos funcionários responsáveis pela aplicação da lei neste país são um bando de criminosos mentirosos. O presidente, os generais, o chefe do fbi[10], o chefe da cia[11], e o chefe da casa branca estavam implicados nos crimes de Watergate.

Eles nos chamam de assassinos, mas nós não assassinamos cerca de cinquenta homens, mulheres e crianças Negros desarmados, ou ferimos outros milhares nas manifestações que eles fizeram nos anos sessenta. As regras para esse país sempre consideraram as propriedades deles mais importantes que nossas vidas. Eles nos chamam de assassinos, mas nós não somos responsáveis pelos vinte e oito irmãos detidos e os nove reféns assassinados em aticca[12]. Eles nos chamam de assassinos, mas nós não assassinamos e ferimos, também, mais de trinta estudantes Negros desarmados no Estado de Jackson[13]– ou Estado Sulista.

Eles nos chamam de assassinos, mas nós não assassinamos Martin Luther King Jr., Emmett Till, Medgar Evers, Malcolm X, George Jackson, Nat Turner, James Chaney[14]e incontáveis outros. Nós não matamos, com tiro nas costas, Rita Lloyd de dezesseis anos, Rickie Bodden de 11 anos ou Clifford Glover de 10 anos. Eles nos chamam de assassinos, mas nós não controlamos ou forçamos um sistema de racismo e opressão que mata, sistematicamente, Negros e pessoas do Terceiro Mundo. Apesar de pessoas Negras supostamente compreenderem cerca de quinze por cento da população total amerikkkana[15], pelo menos sessenta por cento das vítimas de homicídio são Negras. Para cada porco que é morto no chamado cumprimento do dever[16], há pelo menos quinze pessoas Negras assassinadas pela polícia.

I can’t breath!!!

A expectativa de vida Negra é muito menor do que a branca e eles fazem seu melhor para nos matar antes mesmo de nós termos nascido. Nós somos queimados vivos em armadilhas de fogo. Nossos irmãos e irmãs em overdose[17]de heroína e metadona diariamente. Nossos bebês morrem de envenenamento por chumbo. Milhões de pessoas Negras morreram como resultado de assistência médica indecente. Isso é assassinato. Mas eles têm a ousadia de nos chamar de assassinos.

Eles nos chamam de sequestradores, mas o Irmão Clark Squires (que é acusado, junto comigo, de matar um policial estadual de nova jersey[18]), foi sequestrado em x[19]de abril, 1969, na nossa comunidade Negra e (eles) realizaram um resgate de um milhão de dólares no caso de conspiração New York Panther 21[20]. Ele foi absolvido em 13 de maio de 1971, juntamente com todos os outros, de 156 acusações de conspiração, por um júri que levou menos de duas horas para deliberar. Irmão Squires era inocente. Mesmo assim ele foi sequestrado de sua comunidade e família. Mais de dois anos de sua vida foram roubados, mas eles nos chamam de sequestradores. Nós não sequestramos os milhares de Irmãos e Irmãs feitos cativos nos campos de concentração amerikanos[21]. Noventa por cento da população prisional neste país são Negros e pessoas do Terceiro Mundo que não podem nem pagar fiança nem advogados.

Eles nos chamam de ladrões e bandidos. Eles dizem que nós roubamos. Mas não fomos nós que roubamos milhões de pessoas Negras do continente africano. Nós fomos roubados da nossa língua, dos nossos Deuses, da nossa cultura, da nossa dignidade humana, do nosso trabalho e das nossas vidas. Eles nos chamam de ladrões, ainda que não sejamos nós que desviamos bilhões de dólares todo ano em evasões fiscais, fixação ilegal de preços, peculato, fraude contra o consumidor, subornos, propinas e corrupção. Eles nos chamam de bandidos, ainda que toda vez que a maioria das pessoas Negras pegam os seus salários estejam sendo roubadas. Toda vez que entramos numa loja na nossa vizinhança, nós estamos sendo extorquidos. E toda vez que nós pagamos nosso aluguel o locador enfia uma arma em nossas costelas.

Eles nos chamam de ladrões, mas nós não roubamos e assassinamos milhões de Indígenas arrancando sua terra natal e, em seguida, chamando a nós mesmos de pioneiros. Eles nos chamam de bandidos, mas não somos nós que estamos roubando a África, Ásia e América Latina de seus recursos naturais e liberdade enquanto as pessoas que lá vivem estão doentes e famintas. As regras desse país e seus lacaios cometeram alguns dos crimes mais brutais e violentos da história. Eles são os bandidos. Eles são os assassinos. E eles devem ser tratados como tais. Esses maníacos não estão aptos a julgar a mim, ou a Clark, ou a nenhuma outra pessoa Negra em julgamento na amérika. Pessoas Negras poderiam e, inevitalmente, devem determinar nossos destinos.

Revolução do Haiti

Toda revolução na história foi realizada por ações, apesar de palavras serem necessárias. Nós temos que criar escudos que nos protegem e lanças que penetram nossos inimigos. Pessoas Negras devem aprender como lutar pela luta. Nós temos que aprender com nossos erros.

Eu quero me desculpar com vocês meus irmãos e irmãs Negros, por estar no pedágio de nova jersey[22]. Eu deveria ter sabido melhor. O pedágio é um posto de controle no qual pessoas Negras são paradas, revistadas, perseguidas e agredidas. Revolucionários nunca devem ficar com muita pressa ou tomar decisões descuidadas. Aquele que corre quando o sol está dormindo vai tropeçar muitas vezes.

A cada vez que um Lutador Negro pela Liberdade[23]é assassinado ou capturado, os porcos tentam criar a impressão de que eles anularam o movimento, destruíram nossas forças e pararam a Revolução Negra. Os porcos também tentam nos dar a impressão que cinco ou dez guerrilhas são responsáveis por toda ação revolucionária feita na amérika. Isso é absurdo. Isso é absurdo. Revolucionários Negros não caem da lua. Nós somos criados por nossas condições. Moldados na nossa opressão. Nós estamos sendo fabricados em massa nas ruas do gueto, lugares como attica, san quentin, colinas de bedford, leavenworth, and sing sing. Eles estão formando milhares de nós. Muitos veteranos Negros desempregados e mães carentes[24]estão engrossando nossas fileiras. Irmãos e irmãs de todas as esferas da vida, que estão cansados de sofrer passivamente, compõem o Exército de Liberação Negra.

Marcha Reaja!!!

Há, e sempre haverá, um Exército de Libertação Negra, até que todo homem, mulher e criança Negros sejam livres. A principal função do Exército de Libertação Negra neste momento é criar bons exemplos, para lutar pela liberdade Negra, e para se preparar para o futuro. Devemos nos defender e não deixar ninguém desrespeitar a gente. Temos que ganhar a nossa libertação por qualquer meio necessário.

É nosso dever lutar por nossa liberdade.
É nosso dever ganhar.
Devemos amar uns aos outros e apoiar uns aos outros. Não temos nada a perder senão as nossas correntes.

 

PanAfrican

 

 

 

[1]Do original Black. Optamos pelo uso dos termos “Negro” e “Negra”.

[2]Dentre as características estéticas dos textos de Assata Shakur, está o uso de letras maiúsculas a fim de marcar a importância de determinadas palavras/conceitos.

[3]Do inglês i, em minúsculo. Na escrita formal da língua inglesa, o pronome I (eu) é escrito em maiúsculo, mesmo no meio das frases. Shakur sempre utiliza a letra minúscula para marcar, dentre outros, que sua luta não é individual, rejeitando a supremacia do indivíduo em detrimento dos valores comuns.

[4]Nome de registro. O uso do minúsculo indica o desprezo/não reconhecimento do seu nome de registro, um nome americano. A autora adotou o nome Assata Olugbala Shakur que significa “aquela que luta (Assata) para o povo (Olugbala), aquela que é grata (Shakur)”.

[5]Do original amerika. A letra minúscula marca o não reconhecimento, pela autora, do Estado norte-americano. A escrita com k é uma referência à Ku Klux Klan (KKK), organização racista e protestante norte americana que prega ódio aos negros e a supremacia branca especialmente no sul dos Estados Unidos (EUA).

[6]Do original Black Liberation Army, organização negra armada norte-americana da década de 70. Optamos por fazer a tradução do nome para o português a fim de manter o impacto do texto.

[7]John Dillinger (1903-19034) e Kate Ma Barker (1873-1935) foram dois criminosos brancos que, em vida, eram considerados inimigos públicos pelo governo norte-americano, mas após sua morte, passaram a representar uma espécie de lenda no país.

[8]Richard Nixon (1913-1974). Foi o 36o presidente norte-americano: de 1969 a 1974.

[9]O Caso de Watergate foi um escândalo político ocorrido nos EUA na década de 70 que levou à renúncia do presidente Nixon.

[10]FBI, ou Federal Bureau Investigation, é a agência federal de investigação dos EUA. A letra minúscula, no texto, marca o não reconhecimento da instituição pela autora.

[11]CIA, ou Central Intelligence Agency, é o serviço de inteligência do governo dos EUA.

[12]Aticca, cidade do estado de Ohio, EUA. Nessa passagem Assata Shakur se refere a uma rebelião ocorrida dentro da Prisão de Attica (Attica Prision), na década de 70.

[13]Jackson State killings foi uma onda de assassinatos de negros ocorridos dentro de uma universidade (Jackson State University) em Jackson, Missipi, década de 70.

[14]Revolucionários Negros norte-americanos e figuras emblemáticas da luta anti-racista nos EUA. Martin Luther King Jr. (1929-1968), Emmett Till (1941-1955), Medgar Evers (1925-1963), Malcolm X (1925-1965), George Jackson (1941- 1971), Nat Turner (1800-1831) e James Chaney (1943-1964).

[15](Ver nota 5)

[16]Do original line of duty.

[17]Do original OD – abreviatura, em inglês, para overdose.

[18]A letra minúscula marca o não reconhecimento do Estado norte-americano pela autora.

[19]Do original z, marcando uma incógnita.

[20]O caso New York Panther 21 refere-se à prisão de 21 membros do Partido dos Panteras Negras em 1969 acusados de atentar contra dois postos policiais e uma escola em Nova York. Os 21 membros foram considerados inocentes.

[21](Ver nota 5)

[22](Ver nota 18)

[23](Ver nota 2)

[24]Do original welfare mothers. Refere-se a mães que recebem benefícios da assistência social norte-americana.

 

 

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A missão do Grupo Kilombagem é a apropriação, produção e difusão de conhecimento a cerca da humanidade e suas principais contradições sociais.

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2 Responses

  1. luis antonio olario dos santos disse:

    o mundo ta dificil para os pobres ou sempre esteve mas para negros muito mais em ns situaçoes somos vistos sempre como o bandido da historia

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