Burkina Faso: Thomas Sankara e os levantes populares

Viver africano para viver livre e digno.

Pode-se matar líderes revolucionários, mas as ideias permanecem.

Thomas Sankara

Protesters pose with a police shield outside the parliament in Ouagadougou on October 30, 2014. Photograph: Issouf Sanogo/AFP/Getty Images

Protesters pose with a police shield outside the parliament in Ouagadougou on October 30, 2014. Photograph: Issouf Sanogo/AFP/Getty Images

A forma como a imprensa vem divulgado os recentes levantes populares em Burkina Faso contra o Presidente Blaise Compaoré, estimula-me a produzir este pequeno texto introdutório ao som de Orun Aye por BA Kimbuta, na esperança de ressuscitarmos, resgatarmos e nos apropriarmos da história de luta do revolucionário Thomas Sankara, ocultado e negado pelos grandes meios de comunicações, esquecido por uma boa parte da esquerda e pelo movimento negro.

A região de Alto Volta até 1960 foi colonizada e explorada pela França. Sem acesso ao mar, cercado ao norte pelo deserto, a região está localizada no Oeste da África. O país faz fronteira com o Mali, a Costa do Marfim, Gana, Togo, Benin e Níger. Posteriormente à independência, o país não teve significativos avanços devido à sucessão de governos corruptos e submissos a França. Após uma insurreição popular liderado por Thomas Sankara em 1983, o país foi rebatizado para Burkina Faso que significa “o país dos homens íntegros” e modifica radicalmente e positivamente as políticas do país.

Thomas Sankara foi um líder revolucionário africano, teórico marxista e pan-africanista. O jovem Sankara assumiu o poder com apenas 33 anos, um chefe de Estado muito dinâmico e inovador. Ele utilizava um discurso revolucionário, contra o neocolonialismo e imperialismo, e a serviço do povo. Sankara acreditava que a África podia resolver sozinha todos os seus problemas, e que o continente deveria ser um bloco unido em decisões e soberano, sem interferência de países imperialistas.

Sankara iniciou uma série de reformas sociais e econômicas que modificaram o país. No campo econômico, a política econômica estava voltada para a busca da autonomia do próprio país, com isso não seguiu as políticas orquestradas pelo FMI e pelo Banco Mundial. Restabeleceu que o desenvolvimento nacional seria alcançado com os recursos naturais do próprio país. Nacionalizou a produção relançando a manufatura de algodão, com a moda “Faso Danfam” (era uma vestimenta usada pelos funcionários públicos). Reduziu o seu salário de chefe de Estado, o de ministro e dos altos funcionários. Decretou que todos os ministros viajassem na segunda classe. Pôs fim ao imposto colonial. Fez uma ambiciosa campanha de construção de estrada e trilhas. Realizou uma reforma agrária retirando o poder dos tradicionais donos da terra.

No campo social, conseguiu em quatro anos tonar o país auto suficiente na produção alimentar. Focou na educação lançando uma expedição nacional de alfabetização. Promoveu uma campanha de vacinação que erradicou a poliomielite, o sarampo, e a meningite. Dois milhões e meios de burkinabenses foram vacinados em uma semana. Implementou um processo de esportes de massa que convidava cada habitante a praticar esportes uma vez por semana. Nas cidades, onde a população se obrigava em casebres, foram construído alojamentos sociais. Foi pioneiro na defesa dos direitos das mulheres e na igualdade de gênero. Houve uma política ou pelo menos uma intenção de incluir as mulheres na categoria de cidadãs portadoras de direitos. Nomeou mulheres aos altos cargos do governo, proibiu a mutilação genital, a poligamia e os casamentos forçados, encorajou-as a permanecer trabalhando e estudando mesmo quando grávidas.

Homem íntegro

Entretanto, por volta de 1987, começam a se agudizar algumas contradições próprias a um processo revolucionário em um país pobre: o constante clima de guerra interna provocado pelo risco eminente de uma contra-revolução e a presença forte do Estado em todos os setores da vida cotidiana começam a provocar incômodos na população e o processo político começa a enfraquecer”. Blaise Compaoré, que a esta altura era o número 2 do regime e amigo pessoal de Sankara almejava assumir o poder, e passou a explorar esse descontentamento diretamente apoiado pelo CIA, França e os seus fieis seguidores na África, como era o caso do presidente da Costa do Marfim Félix Houphouet Boigny. A França indiretamente apoiou Compaoré, pois sua política imperialista e neocolonialista visava manter o controle sobre as antigas colônias, e via um risco que as ideias de Sankara propagassem por toda a região, principalmente nas suas outras antigas colônias.

Em 15 de Outubro de 1987, Thomas Sankara e uma dezena de colaboradores foram atacados por aqueles que lucram financeiramente com o detrimento do continente africano. Elementos da guarda próxima a Blaise Compaoré entraram e atiraram em todos que estavam reunidos na sala matando Tomas Sankara, um dos maiores líderes políticos que a África viu surgir. Na manhã seguinte, Compaoré se auto proclamou presidente, e se isentou da morte do seu ex-melhor amigo na imprensa internacional. Os governos francês e marfinense o felicitaram. Compaoré institui o que ele chamou de retificação da revolução, reverteu as nacionalizações, derrubou quase todas as políticas revolucionárias e submeteu ao pais as políticas do FMI.

Posteriormente, a reputação de Sankara foi difamada: acusaram o de ter enriquecido no poder e reviraram a sua casa a procura de qualquer sinal de enriquecimento. Encontraram uma casa simples, um automóvel modesto, quatro motocicletas velhas, três violões e alguns surrados moveis. Foi constatado que o salário mensal de Sankara era de 450 dólares nos documentos oficiais do governo de Burkina Faso. O que restou para família foram alguns objetos pessoais abandonados no seu quarto de estudo.

Após o golpe liderado por Blaise Compaoré, ele permaneceu no poder por 27 anos. Dirigiu o país com mãos de ferro através de um regime militar até 1991, quando foi “eleito” presidente da República nas primeiras eleições depois do golpe. Foi instaurado o multipartidarismo na constituição de 1991, mas o partido de Compaoré continuou dominando o cenário político, e foi reeleito presidente em 1998, 2005 e 2010. Para poder estender o seu mandato, ele alterou a constituição duas vezes, em 1997 e em 2000. Após vencer quatro eleições presidenciais, Compaoré estava impedido de participar das próximas eleições presidenciais conforme as leis do país.

No final do mês de Outubro de 2014 uma emenda constitucional seria votada para que Compaoré conseguisse disputar a próxima eleição presidencial, mas a sessão parlamentar foi suspensa devido a um série de protestos convocados pela oposição Fronte Progressista Sankarista e pelos jovens do movimento Balai Citoyen. Multidões foram as ruas pacificamente, e foram duramente recebidos com bombas de gás lacrimogêneo, bastonadas e prisões arbitrárias. No dia 31 de Outubro de 2014 – data prevista para a votação do projeto de lei – o protesto se intensificou em uma verdadeira revolta popular. O Parlamento, a Prefeitura de Ouagadougou (capital do país), as residências de parlamentares e outros prédios do governo foram incendiados, e a TV estatal foi tomada pela população. Segundo o correspondente da BBC Yacouba Ouedraogo, ao menos uma pessoa foi morta nos protestos. No entanto, o principal líder da oposição, Zephirin Diabre, disse que dezenas de manifestantes foram mortos no país por forças de segurança. Estima-se que mais de 30 pessoas foram mortas e 200 ficaram feridas.

Blaise Compaoré antes da Black Spring

Após quatro dias de protestos, Blaise Compaoré renunciou na tarde do dia 31 de Outubro de 2014 e fugiu com sua família e amigos mais próximos para uma mansão de luxo na Costa do Marfim. Depois de divergências entre dois de seus mais altos oficiais, o Exército anunciou que o tenente-coronel Isaac Zida assumiu interinamente a presidência do país africano. A euforia, a esperança de um novo rumo para o povo de Burkina Faso, e a impressão de vitória popular transformou se em apreensão com um possível golpe militar. Principalmente porque Zida era um dos homens de confiança de Compaoré.

No início do mês de Novembro de 2014 as Nações Unidas e a União Africana pediram aos militares que estão no poder que passe o controle do país para civis ou sofrerão as consequências. Enquanto isso, milhares de pessoas foram as ruas, na capital de Ouagadougou para exigir o fim da tomada do poder pelos militares. Entre várias cartazes, um trazia ‘Não ao confisco de nossa vitória’. Tanto Paris quanto Washington não protestaram contra a saída de Compaoré e preferiram se concentrar em pedidos para que os militares garantam o processo democrático. Ao que parece se o novo líder empossado for aliado da casa branca e da Europa Ocidental “não há problemas” com a denominada “transição para um processo democrático”.

Opositores e representantes do governo interino de Burkina Faso entraram em um acordo e, acertaram um calendário de transição política que prevê eleições em novembro de 2015. O acordo, negociado com a mediação dos presidentes de Gana, Senegal e Nigéria, prevê a criação de um “governo de transição durante o período de um ano” e “a realização de eleições presidenciais e legislativas”. As partes concordaram em restabelecer a vigência da Constituição e em designar “uma eminente personalidade civil para liderar a transição”. Apesar do acordo, os negociadores não chegaram a um consenso sobre o nome do líder do governo de transição e até o presente momento o tenente-coronel Zida permanece no poder.

Não à confiscação da nossa vitoria

O fato é que os 27 anos no poder fizeram muito bem para o ex-presidente Compaoré, para os países aliados da França e para o FMI. Já à população burkinabenses, mergulhada na miséria restou a amarga conta do neocolonialismo e do imperialismo vigente na região. De acordo os índices sociais, é possível comprovar o enorme estrago deixado pelo regime de Compaoré: Burkina Faso é considerado um dos países mais pobres do mundo no ranking de Desenvolvimento Humano da ONU de 2013, o país ocupa a 179ª posição, com IDH de 0,388. Apenas 17% da população possui acesso a rede sanitária. Na educação, as Nações Unidas classifica o país com o menor nível de alfabetização do mundo. Já em relação a saúde, o país concentra apenas serviços de atendimento primário e não há programas de vacinação.

Reconheço e poderia ter exposto neste texto as limitações e contradições que estiveram de certa forma presente no regime liderado por Thomas Sankara, mas deixo as críticas para os que já se dedicam a bater e a negar a luta revolucionária. Mas aviso aos navegantes – alguns ingênuos, outros mal intencionados – que não há fórmula, apostila ou cartilha para revolução, logo as limitações e contradições estiveram presente também em todos que se dedicaram e aderiram a luta pela transformação racial da sociedade. Por outro lado, é inegável não pontuar os avanços promovidos no período que ele esteve à frente do país. Para além de idealismos e utopias, convém à nossa geração não deixar o espirito corajoso, criativo e revolucionário de Sankara se perder.

De punho cerrado, dedico este humilde texto aos levantes populares em Burkina Faso ao som de You No Go Die ….. Unless por Fela Kuti.

People in Burkina Faso’s capital Ouagadougou celebrate after embattled President Blaise Compaore announced on Oct. 31

People in Burkina Faso’s capital Ouagadougou celebrate after embattled President Blaise Compaore announced on Oct. 31

Todo poder e apoio ao povo burkinabense!

 

Referências:

Presidente de Burkina Faso declara estado de emergência. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/10/141028_burkina_faso_estado_emergencia_rb> Acesso em 04 nov. 2014.

No poder desde 1987, presidente de Burkina Fasso renuncia em meio a onda de protestos. Disponível em: <http://www.brasildefato.com.br/node/30355> Acesso em 01 nov. 2014.

Presidente de Burkina Faso renúncia. Disponível em: <http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,presidente-de-burkina-fasso-renuncia,1586099> Acesso em 02 nov. 2014.

Exército anuncia governo de transição em Burkina Faso. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/mundo/exercito-anuncia-governo-de-transicao-em-burkina-faso-14414944> Acesso em 03 nov. 2014.

Militares assumem o poder em Burkina Faso. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141101_burkina_faso_fd> Acesso em 08 nov. 2014.

ONU pede a militares que passem poder a civis em Burkina Faso. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141102_burkina_dom_rp.shtml> Acesso em 06 nov. 2014.

O Che africano e a terra dos Homens Íntegros. Disponível em: <http://comunicatudo.blogspot.com.br/2012/01/o-che-africano-e-terra-dos-homens.html> Acesso em 31 out. 2014.

A revolta popular em Burkina Faso. Disponível em <http://passapalavra.info/2014/11/100796> Acesso em 5 nov. 2014.

Líderes africanos vão a Burkina Fasso pressionar Exército por saída civil para impasse político. Disponível em: <http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/38434/lideres+africanos+vao+a+burkina+fasso+pressionar+exercito+por+saida+civil+para+impasse+politico.shtml?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter> Acesso em 10 nov. 2014.

Burkina Faso tem acordo para eleições presidenciais em um ano Disponível em <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/11/burkina-faso-tem-acordo-para-eleicoes-presidenciais-em-um-ano.html> Acesso em 10 nov. 2014.

La liberación de la mujer: una exigencia del futuro. Discurso de Thomas Sankara (8-3-1987). Disponível em: <http://andaluciaproletaria.blogspot.com.br/2010/01/la-liberacion-de-la-mujer-una-exigencia.html> acesso em 10 nov. 2014.

Documentário

Thomas Sankara: o homem íntegro. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=YkWZVu7wsDE> Acesso em 01 nov. 2014.

Rafaela Araújo

Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Paulista e integrante do Grupo KILOMBAGEM

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