Da favela pra academia! Aqui é Ubuntu, não é meritocracia!

_DSC9351

Devison Nkosi

“É necessário sempre acreditar que o sonho é possível

Que o céu é o limite e você, truta, é imbatível”

(A vida é um desafio – Racionais Mc’s)

 

Essa e outras letras traduzem bem a luta desse guerreiro que invadiu a universidade colocando os pretos no lugar mais alto do pódio da academia. No último dia 03 de setembro, às 15h, defendeu sua tese de doutorado pela Universidade Federal de São Carlos, com o tema Fanon e os Fanonismos no Brasil. Aqui segue a rima com um pouco da trajetória de Deivison Mendes.

 

Sua história de vida se funde e se confunde com sua militância, e é na militância que é forjado Deivison Nkosi – Nkosi em língua Kimbundo, falado em Angola, significa Leão ou Guerreiro, mas também remete à uma divindade (Nkisi) relacionado à guerra, à força e à tecnologia.
Ele conta que a militância começou aos 14 anos. Inspirados no Rap e na experiência de posses de Hip Hop como o Força Ativa (Zona Leste de São Paulo) e a Posse Haussa (de São Bernardo do Campo), ele e um grupo de amigos formaram o Núcleo Rotação (Resistência Organizada de Trabalho e Ação). O grupo partia da realidade que viviam e dos estudos, tomando como base a literatura panafricanista e marxista, com o objetivo de entender o mundo para transformá-lo! Também foi um dos membros fundadores do grupo AMANDLA, junto com a Mara e o Ney. Suas canções falavam de resistência, denúncia e a história do povo negro. A Capoeira de Angola também exerceu forte influência sobre ele e merece um texto a parte.

Entre um corre e outro pra sobreviver (Deivison trabalha desde criança), formou-se em Ciências Sociais, pela Fundação Santo André em 2005. Na Fundação pode ampliar seus estudos e suas lutas, juntamente com outros camaradas. Foi protagonista de uma geração que conseguiu colocar intelectuais como Clóvis Moura na bibliografia do curso! Eaaa!
Do Rotação pra cá, como diz ele, muita água rolou, e entre os rios que passaram em sua vida está a paternidade, partilhada na parceria com a mãe, Ângela, e a sua companheira Leila.
Inclinado para os estudos acadêmicos, sempre com os dois pés na realidade, produziu sua dissertação de Mestrado na Faculdade de Medicina do ABC, entre os anos de 2008 e 2009, a qual teve como tema O movimento negro e a saúde da população negra, pautando questões importantes, incluindo o debate sobre o genocídio do povo negro que ocorre também no âmbito da saúde pública.

Em 2010, viaja para Azânia (África do Sul) para vivenciar um intercambio com os militantes da Ebukhosini Solutions  onde, além de aprimorar o Inglês, tem vivências inesquecíveis, fortalecimento da ancestralidade e ampliação de sua visão de mundo.
Depois disso, foi professor de história da África na FASB e de sociologiana UFSCAR e hoje trabalha com formação de professores para Educação das Relações étnico-raciais. Tornou-se um pesquisador de referência, sem abandonar a organização coletiva. Com o fim do Núcleo Rotação, ele esteve entre os camaradas que formam o Coletivo Kilombagem, dando continuidade ao processo de estudos e intervenção na realidade. Partindo das pautas do povo negro, enveredaram pelo caminho, sempre à esquerda, de compreender o mundo na perspectiva de raça, classe e gênero, ou como dizem, entender e combater o racismo e o machismo, tendo como ponto de partida a perspectiva do Trabalho. E lá se vão mais de 10 anos de Kilombagem! Pei!

 

Não há dúvida de que a conquista desse guerreiro é uma conquista coletiva, um daqueles momentos pra entrar pra história! Deivison Nkosi não conquistou apenas um título acadêmico, com louvor e distinção, que será publicado em duas línguas, ele conquistou corações e mentes! Representou os manos e manas das quebradas dos Sítios dos Vianas, cada sonho construído do Rotação ao Kilombagem! Mostrou que há muitas correntes a serem quebradas e que é tudo nosso!!

 

Ubuntu!

 

Janaina Monteiro

Formada em Ciências Sociais pela Fundação Santo André. Professora de Geografia e Sociologia da rede pública e particular. Militante do coletivo Kilombagem.

You may also like...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>