De Michael Brown a Assata Shakur: O EUA e a continuidade do Estado racista

Por Angela Davis, 2014

Tradução e revisão:  Leila Maria de Oliveira e Regina Maria da Silva

Embora a violência racista do Estado tenha sido um tema constante na história de pessoas de ascendência Africana nos Estados Unidos, tornou-se algo de especial interesse durante a administração do primeiro presidente Afro-Americano, cuja eleição foi amplamente interpretada como anúncio de uma nova era pós-racial.

Protestos contra as mortes de negros por policiais estadunidenses

A sucessão de mortes de jovens negros nas mãos da polícia contradiz a suposição de que estas são aberrações isoladas. Trayvon Martin na Flórida e Michael Brown em Ferguson, Missouri, são apenas os mais conhecidos de inúmeras pessoas negras mortas pela polícia ou militares durante a administração Obama. E eles, por sua vez, representam tanto fluxo constante de violência racial, oficial e extraoficial, das patrulhas de escravos e da Ku Klux Klan, até a prática contemporânea da discriminação racial e os atuais “vigilantes”.

Passado mais de três décadas, foi concedido a Assata Shakur asilo político em Cuba, onde desde então viveu, estudou e trabalhou como um membro produtivo da sociedade. No início de 1970, Assata foi falsamente acusada inúmeras vezes pelos EUA e agredida pela mídia. Ofendia-a em termos sexistas como “mãe galinha” do Exército de Libertação Negra, que por sua vez era tratado como um grupo com tendências violentas insaciáveis. Colocada na lista dos mais procurados pelo FBI, acusada de assalto à mão armada, assalto a banco, sequestro, assassinato e tentativa de assassinato de um policial. Embora enfrentasse 10 processos diferentes e já condenada pela mídia, todos os julgamentos com exceção de um caso terminaram com um veredicto de absolvição pelo desacordo do tribunal. Em circunstâncias muito questionáveis, acabou sendo condenada como cúmplice no assassinato de um policial do estado de Nova Jersey.

“Não toquem em Assata”

Quatro décadas depois da campanha original contra ela, o FBI decidiu demonizá-la novamente. No ano passado, no 40º aniversário do tiroteio de New Jersey Turnpike, em que morreu o policial Wertner Foerster, Assata foi adicionada à lista dos dez terroristas mais procurados. Para muitos, esta ação do FBI era grotesca e incompreensível, o que suscita a pergunta óbvia: que interesse pode ter o FBI designar como um dos terroristas mais perigosos do mundo, dividindo espaço com indivíduos listados cujas ações alegadas levaram a ataque militar no Iraque, Afeganistão e Síria, uma mulher negra de 66 anos vivendo tranquilamente em Cuba ao longo das últimas três décadas e meia?

Uma resposta parcial a esta pergunta talvez mesmo decisiva pode ser descoberta na extensão espacial e temporal do âmbito da definição de “terror”.

Após a designação de Nelson Mandela e do Congresso Nacional Africano como “terroristas” pelo governo do apartheid Sul-Africano, o termo foi amplamente aplicado a ativistas de libertação negra durante o final dos anos 1960 e início dos anos 1970.

A retórica do presidente Nixon a respeito da lei e da ordem implicava rotular como terrorista o Partido Panteras Negras e a mim também da mesma maneira. Mas não foi até que George W. Bush declarou guerra contra o terrorismo após o 11 de setembro de 2001 que os terroristas passaram a representar o inimigo universal da “democracia” ocidental. Envolver Assata Shakur numa conspiração terrorista contemporânea é também colocar sob a égide da “violência terrorista” os que herdaram seu legado e que se identificam com a luta constante contra o racismo e capitalismo. Na verdade, o anticomunismo histórico contra Cuba, onde Assata vive, foi perigosamente articulado com o antiterrorismo. O caso do Cinco de Cuba é um excelente exemplo disso.

Cartaz de apoio aos Cinco cubanos em Varadero, Cuba.

Este uso da guerra contra o terror como uma ampla descrição da democracia ocidental proposto no século 21 serviu como justificativa para o racismo anti-muçulmano; legitimou ainda mais a ocupação israelense da Palestina; redefiniu a repressão aos imigrantes; e tem indiretamente levado à militarização dos departamentos policiais em todo o país. Os departamentos de polícia, incluindo o campus universitário, adquiriram equipamentos excedentes das guerras no Iraque e no Afeganistão através do Programa de Excesso de Propriedade do Departamento de Defesa. Assim, em resposta à recente morte de Michael Brown pela polícia, os manifestantes que desafiaram a violência racista dos policiais, foram confrontados por agentes com uniformes camuflados, portando armas militares e conduzindo veículos blindados.

A resposta global ao assassinato de um adolescente negro em uma pequena cidade no Centro-Oeste pela polícia, sugere a crescente conscientização sobre a persistência do racismo americano num momento em que este deveria estar em declínio. O legado de Assata representa uma tentativa de ampliar e aprofundar as lutas anti-racistas. Em sua autobiografia, publicada este ano, ao evocar a tradição negra radical de luta, ela nos pede para “prosseguir. / Dê para as crianças. / Passem para outras gerações. / Continuar isso… / Até a liberdade! ”

 

Angela Davis

* Angela Davis é Professora Emérita de História da Conscientização e Estudos Feministas na Universidade de Califórnia, Santa Cruz. Ela escreveu o prólogo de Assata: uma autobiografia.

 

Disponível em: http://marxismocritico.com/2014/12/05/de-michael-brown-a-assata-shakur-la-continuidad-del-estado-racista-de-ee-uu-angela-davis/

Leila Maria

Graduada em Educação Física pela ESCUELA INTERNACIONAL DE EDUCACION FISICA Y DEPORTE - CUBA (2008); Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde pesquisou sobre as políticas públicas curriculares e reformas educacionais, com ênfase na implementação da Lei 10.639/03, que altera a LDB 9.394/96 no currículo da educação física. Tem experiência na área de educação, com ênfase em Educação Física.

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