DIGA NÃO AO ABUSO EMOCIONAL PRATICADO CONTRA CRIANÇAS!

william-h-johson-children-danceParece ter virado febre a disseminação nas redes sociais de vídeos com crianças em situação de sofrimento com o fim de divertir os adultos. São inúmeros vídeos, de curta duração, em que as crianças aparecem desesperadas, irritadas, ansiosas ou em estado de alerta artificialmente produzido.

Em um vídeo, por exemplo, após terem ensinado à criança uma certa verdade, a negam até vê-la chorar. No caso, fizeram a menina crer na afirmação preconceituosa de que o time de futebol Corinthians simboliza a favela e a pobreza e o Palmeiras simboliza o oposto. Depois passaram a afirmar que ela era corinthiana. A criança, em situação de defesa e confusão mental, começa a chorar copiosamente, negando que é favelada e, principalmente, implorando gestualmente pelo reconhecimento do adulto que a filma que ela não é favelada.

Em outro vídeo, a criança é adestrada a dançar toda vez que uma certa música mencionando que “hoje é sexta-feira” começa a tocar. Concluído o adestramento, filma-se a criança mamando calmamente no seio materno. De repente, toca-se a música e a criança, num ato automático, pula do colo da mãe e começa a dançar assustadamente.

Outro vídeo mostra a reação agressiva da criança quando tentam tirar-lhe o pacote de guloseimas da mão. A criança defende seus doces chamando o adulto de “filho da puta”.

Há ainda um outro vídeo em que a criança demonstra contrariedade e frustração quando lhe é tirado abruptamente um coelhinho de pelúcia elétrico que usava na região genital, expondo sua genitália nua. Para produzir esse vídeo, os adultos certamente estimularam a criança a brincar daquele modo, posto que raramente se consegue gravar crianças em suas peripécias na primeira vez que as fazem.

Como esses, há muitos outros vídeos circulando pelas redes, mas o que eles têm em comum é o mais profundo desrespeito pela criança, é o abuso da sua ingenuidade e a traição da confiança que precisa depositar nos adultos que o cercam. Esses vídeos são produzidos por adultos perversos, que não aprenderam a respeitar os mais frágeis e nem a se envergonhar com o sofrimento que provocam nas crianças.

Para seu prazer egowilliam-h-johson-childrencêntrico, transformam seres na mais tenra idade em meros objetos e as adestram para se comportar do modo desejado, em prejuízo da saúde mental delas.

Esse tipo de vídeo, evidentemente, é o completo oposto daquele que se produz a partir da observação atenta e respeitosa do desenvolvimento da criança, das graças advindas de sua curiosidade do mundo e de sua necessidade de tentar fazer algo até aprender.

Criança não é brinquedo e nem mesmo um animal irracional deve ser adestrado, em prejuízo de sua saúde, para simplesmente divertir os humanos. Ao produzir e compartilhar vídeos como os mencionados acima ensinamos desrespeito às crianças, ensinamos que seres humanos podem ser usados como brinquedos e ensinamos que podemos abusar de quem não consegue se defender. Além disso, estimulamos a proliferação desse lixo audiovisual.

Diga não à violência emocional contra a criança. Ou nos divertimos junto com elas, ou não há diversão, há abuso!!!

 

*Pinturas de William H. Johnson

Brisa Kamulenge

Brisa Kamulenge é formada em Ciências Sociais pela USP e é funcionária pública federal.

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