Heidegger e Nazismo

Saiba mais sobre um dos Papas do irracionalismo pós-moderno e os seus vínculos com o Nazismo. Sua teoria, que  influenciou  diversos pensadores atualmente em voga, está intimamente interligada com a negação filosófica da emancipação humana.

 

Sequência da famosa série da BBC – Human, All Too Human – sobre filosofia. Este programa enfoca os aspectos biográficos do filósofo alemão Martin Heidegger: seu caso amoroso com Hannah Arendt, seu envolvimento com o Nazismo, e sua reabilitação como eminente filósofo depois da Segunda Grande Guerra.

 

A Sombra de Heidegger – Por José Pablo Feinmann,

“Com base em Nietzsche, Heidegger nos dizia que a vontade é luta e que ela, para conservar-se, tinha que crescer sem jamais fazer cessar essa luta. O destino vital da vontade é crescer. Para ela, crescer não é conservar-se – é abominar conservar-se. Crescer é conquistar e dominar, é apoderar-se do espaço vital que ela, a vontade, requer para sua expansão. Conservação e crescimento definem a vontade de poder. Que, em sua infinita força vital, sabe que só crescendo poderá conservar-se. Como se cresce? Lutando. Somente pela luta se conquista o espaço que a vontade exige, o espaço vital. Donde a palavra luta soar poderosa naquele auditório febril. Soar nietzscheana Como apenas Heidegger conseguiria fazer Niestzsche soar. Solar luta, conquista, expansão, guerra.

 

Chegou o final. Para aquele momento, Heidegger nos reservava uma surpresa erudita, mas feroz. Talvez poucos a tenham compreendido – em toda sua profundidade – ali mesmo. Soou igualmente gloriosa. Soou luta, guerra. “Queremos”, disse, “que nosso povo cumpra sua missão histórica. Queremos ser nós mesmos. Pois a força jovem e nova do povo, a qual já nos perpçassa, assim decidiu. No entanto, só compreenderemos plenamente o esplendor e a grandeza dessa arrancada quando tornarmos nossa a grande e profunda reflexão com que a velha sabedoria grega soube dizer que…” Deteve-se O silêncio ribombava, ensurdecia. [...] Todos esperávamos algo grande, desmesurado. [...] Heidegger disse: “Tudo o que é grande está em meio à tempestade”. Percebi. Muitos perceberam. Era uma frase de Platão. Aliás, da República. Mas a palavra tempestade não era platônica. Não era sequer grega. Era a palavra que a SA escolhera para nome. Por que Heidegger disse Sturm? Platão, eu fui conferir naquela mesma noite, dizia perigo. Dizia: “Tudo o que é grande está em perigo”. Ou “corre o risco de perecer”. Mas não tempestade. Sturm, filho, é palavra do romantismo e da SA. A Seção de Assalto recebeu esse nome desde seu primeiro combate de rua, em Munique, por volta de 1921 [...]. Röhm e seus homens foram sempre, e sabidamente, a Sturmabteilung. Agora, com a palavra Sturm, Heidegger unira Platão às tropas de assalto de Röhm. Mais uma vez, o início nos dava a injunção da grandeza.Era Platão quem exigia que a SA fosse fiel à grandeza grega e à grandeza alemã, as quais ela agora deveria assumir e levar ao triunfo.

 

O início é ainda. Tudo o que é grande está em meio à tempestade.

 

Heidegger (assinalado) entre seus pares das SA
Entre vivas, entre gritos de guerra, de alegria e de entusiasmo, entre hinos e canções da SA, entre estandartes com suásticas agitados pelos ventos da tempestade (restava alguma dúvida disso?), entre braços erguidos que saudavam o Führer de Freiburg, entre ofensas aos comunistas, aos judeus, aos social-democratas, aos velhos professores que haveriam de ser expulsos, insultados, surrados, entre rugidos de Heil, Hitler! e, por fim, entre as palavras estrondosas, vociferantes, do hino da comunidade nacional, o genial autor de O ser o tempo, filósofo de nosso século, se retirou.”

José Pablo Feinmann, A Sombra de Heidegger

extraído do blog: http://caocamargo.blogspot.com.br/2011/11/o-perigo-das-palavras.html

Deivison Nkosi

Professor e pesquisador. Integrante do Grupo KILOMBAGEM

You may also like...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>