Je suis… hypocrite et sélective

Mais uma vez, um atentado terrorista mobiliza os corações e mentes em todo o mundo globalizado. O assassinato de civis desarmados é uma tática comum (e desprezível) que merece todo o tipo de repúdio, indignação e solidariedade a cada família que perdeu um amigo ou ente querido. O ponto que sempre chama a atenção, em dias de barbárie crônicas como os nossos, é a fantástica capacidade de nos indignarmos seletivamente.

Vigília em solidariedade às vítimas francesas reúne 300 pessoas em Brasília

Vigília em solidariedade às vítimas francesas reúne 300 pessoas em Brasília

Manifestações de solidariedade em frente ao Cristo Redentor

A pergunta que poderia-se fazer nesse momento de dor e indignação é: Por que essa mesma indignação não se estende para “outras” vítimas do terrorismo quando elas não são europeias?

Frantz Fanon já havia alertado que o colonialismo não se limita à ocupação militar e exploração econômica de territórios, mas atua, ao mesmo tempo, através de poderosos mecanismos de negação da humanidade dos colonizados. Isso significa que a relação Eu/Outro, no colonialismo é permeada por um tipo de racialização reificadora que impede o Eu (nós) de nos vermos como parte relacional do Outro (colonizado). Esse Outro, quando eu o visualizo, é apenas como objeto coisificado, nunca, como sujeito (como Eu).

Esse fetiche racializado permite que eu me veja nos Outros (iguais a mim), reconhecendo nele traços humanos que também são meus, sorrindo com suas alegrias e chorando com a sua dor, apenas quando eles são brancos, pois eles (no caso desse Outro, igual a mim) me colocam de frente com a “minha” própria humanidade.

Homenagem às vitimas francesas no Monumento em Memória aos Bandeirantes, São Paulo

Homenagem às vitimas francesas no Monumento em Memória aos Bandeirantes, São Paulo

Mas há outras categoria de Outros (os diferentes de mim), em que a minha solidariedade é impossível. Há momento em que eu nem os percebo, porque eles nem chegam a ser considerados humanos, como eu… são invisíveis… mas frequentemente, me deparo com eles… não como sujeitos (que revela o meu ser-para-o-outro) mas apenas como objeto.

Esse objeto não é humano (sujeito) como eu. É apenas objeto radicalmente fixado como Outro. Não preciso ficar triste pela pedra quebrada para fazer a brita utilizada no asfalto, penso apenas (quando penso) em sua utilidade para a expansão da minha liberdade. A pedra é apenas objeto da minha auto-realização humana. É verdade que em vários momentos da nossa vida, somos, fazemos ou tomamos outros seres humanos como objeto de nossa realização e desejo, mas entre humanos é diferente, porque esse outro (humano como eu), interage, dialoga e/ou confronta o meu desejo a partir dos seus próprios e é nesse processo dialógico, mas principalmente dialético (gostemos ou não!) que chegamos inclusive a nos perceber individualmente (self). Mas com a pedra, é diferente, porque pedra é apenas objeto… igual os haitianos, bolivianos, nigerianos, palestinos, os negros brasileiros… Definitivamente, não são humanos como Eu, como Nós!

De outra forma não explicaria o nosso silêncio para tantas outras mortes causadas pelo “Estado Islâmico” (ISIS) fora da Europa:

Não se explica o nosso silêncio para tantas mortes causadas pelos Estados Unidos e Europa (incluindo a França e a Russia) para erradicar o Estado Islâmico…

A coalizão liderada pelos Estado Unidos já lançou mais de 280 ataques aéreos contra alvos do grupo autodenominado Estado Islâmico (EI)

Não explicaria o nosso silêncio diante dos ataques do Estado de Israel à Palestina (apoiado hipocritamente pelos Estados Unidos e silenciado pela França)…

Choremos por cada vida perdida nessa guerra que nunca foi um confronto da civilização contra a barbárie (como se insiste em afirmar). A barbárie não é algo que está fora (com os outros racializados e objetificados) mas é parte intrínseca do nosso sistema de produção de riquezas. Os EUA, como representante mais ativo da lógica ocidental (do capital) atuou nas ultimas décadas para impedir que qualquer forma de nacionalismo (inclusive o pan-arabista) pudesse ascender a posições anticapitalistas. Não contentes com isso, vem a muito tempo manipulando processos políticos diversos a favor de seus interesses geopolíticos. Não é segredo a ninguém que os Estados Unidos incentivaram a existência do Taleban e da Al Quaeda para impedir o avanço do comunismo na Europa Oriental e Oriente Médio. Não é segredo que os EUA desestabilizaram a região do Oriente Médio ao depor o Saddam Hussein e ao massacrar um enorme contingente populacional através de “bombas cirúrgicas” que caiam em escolas e hospitais. Todos sabemos que é essa mesma população que irá ingressar nas fileiras daquilo que hoje se intitula como “Estado Islâmico”.

Frantz Fanon, em seu famoso, e ao mesmo tempo pouco lido “Os Condenados da Terra” nos alerta que iniciativas contra-hegemônicas como o chamado “Estado Islâmico são uma catástrofe à luta anticolonial, ja nascem destituídas de um humanismo que permita perceber o ser-para-outro em seus próprios ideais identitários… não atoa, esses militantes, chagaram a assassinar inclusive outros muçulmanos que eles julgaram traidores da fé. Para Fanon, esse tipo de luta só pode levar a barbáries ainda piores. Para Fanon! Mas não para os Estados Unidos, que como se sabe (mas não se noticia), permitiu estrategicamente que o “Estado Islâmico” avançasse para a Síria (suspeita-se inclusive que tenham sidos financiados diretamente pelo Tio San) para que estes desestabilizassem o Regime sangrento de Bashar Hafez al-Assad, da Síria.

Foi por isso que a Rússia, não menos sangrenta, e imperialista, mas concorrente dos Estados Unidos, entra na guerra para confrontar o “Estado Islâmico” (quando os Estados Unidos não o fez) para proteger os seus interesses políticos e econômicos junto ao ditador Bashar Hafez al-Assad, da Síria. Foi só no momento em que o “Estados Islâmico” saiu do controle dos Estados Unidos é que ele passou a ser considerado um inimigo.

 Então, todo esse quebra-cabeças estava logo alí, “tranquilo” como sempre foi… desde que o sangue não escorresse na Europa. Mas o problema é que a França não é apenas uma das principais parceiras dos Estados Unidos neste mosaico, é parte ativa do problema. A França continua com uma atuação neocolonial na África e Oriente Médio e teve participação ativa no surgimento de vários dos conflitos que estamos assistindo.

Interesses franceses no Mali

Interesses franceses no Mali

Mas a história só espanta a quem nada dela entende. Para o nosso desespero (nós todos, a humanidade) o Frankenstein (“Estado Islâmico”) ficou muito forte e saiu do controle das grandes potências e assume proporções assustadoras.

Houve um tempo em que o filósofo húngaro István Mészáros defendia que a humanidade estava entre dois paradigmas conflitantes: O “Socialismo ou a barbárie”. Recentemente, ao perceber o quanto a civilização do capital conseguiu convencer inclusive as suas piores vítimas de que não ha perspectivas fora dessa guerra toda, mas também diante das catástrofes ambientais cada vez mais presentes, e do anuncio dos conflitos que se podem visualizar em relação a isso, o filósofo reformula a sua frase e lamenta: “barbárie, se tivermos sorte!”. E olha que ele ainda não tinha visto o desastre da Vale do Rio Doce (privatizada) em Mariana.

Mas se vamos chorar pelas vítimas… e toda lágrima é pouca quando uma vida é interrompida… não restrinjamos nossa humanidade apenas aos europeus, porque a França, continua sendo parte ativa de um jogo sangrento que produz muito mais mortos do que a nossa vã seletividade pode dar conta.

Deivison Nkosi

Professor e pesquisador. Integrante do Grupo KILOMBAGEM

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