Memórias de Azânia! (África do Sul e Namíbia)

Celebração Kwanzaa, Data: 26 de Dezembro de 2015 Local: Johannesburgo.

Celebração Kwanzaa, data: 26 de dezembro de 2015, local: Johannesburgo.

Eu realmente gostaria de ter escrito muitos textos quando estava em Azânia, mas infelizmente nem sempre as coisas são como planejamos, lá eu não tinha tempo de parar e escrever, e como estava com dificuldade de conexão com a internet, dificultou um pouco mais. Acredito que seja importante relatar este momento, pois de onde eu falo ainda somos muito poucos que tiveram e tem a oportunidade de fazer um intercâmbio cultural desse tipo. Fiquei 4 meses na África do Sul (nome denominado pelo colonizador), na cidade de Johanesburgo (entre 7 de setembro de 2015 a 1 de janeiro de 2016). A realização desta incrível viagem foi através de longos anos em um trampo (foi preciso 10 anos em um emprego para fazer um intercâmbio), e através também do apoio do coletivo Kilombagem, do qual faço parte. Ir para o Continente Africano foi muito mais do que apenas um intercâmbio: representou a volta de uma filha a terra originária, representou todos do coletivo Kilombagem, representou todos os afrodescendentes fora do continente africano, representou a força de todas as famílias africanas na diáspora que lutam todos os dias para garantir o mínimo de sobrevivência para os seus, como minha mãe, mulher preta, guerreira, faxineira, que sonhava em ser psicóloga, mas devido a dureza que o sistema escravocrata e capitalista proporcionou para nós, afrodescendentes, foi obrigada a trocar a sala de aula pelo trabalho na plantação de café com apenas 7 anos de idade.

Chegando em Johanesburgo uma organização chamada Ebukhosini Solutions me recebeu com muito cuidado e alegria. Como eu tive a oportunidade de ficar hospeda nesta instituição, hoje eu entendo que é muito mais do que uma empresa empreendedora social, é uma família pan-africanista, kemetism e vegana. O líder, responsável e diretor executivo da organização é um pan-africanista chamado Baba Buntu, nascido em uma ilha na América Central, mas já vive há mais de 10 anos na África do Sul. Esta organização oferece consultas e serviços relacionados como desenvolvimento da comunidade, capacitação de jovens, treinamento de liderança, transformação social, eventos culturais, produção e educação centrada africana. Algumas atividades desenvolvidas são: seminários, palestras, Kemetic Yoga (é uma forma egípcia africana de respiração, movimento e meditação) e o Kwanzaa. Eu aprendi muito nesta organização, desde a sonhada disciplina revolucionária que muitos coletivos se esforçam e lutam para conseguir implantar, até um novo olhar para a questão da alimentação, pois como a família é vegana, eles não vêem a alimentação como algo à parte da revolução, é como se fosse uma coisa só. Confesso que antes da viagem o máximo que conseguia fazer era um ovo frito, hoje consigo cozinhar vários saborosos legumes e lembro como se fosse hoje a fala da Mama T (esposa do Baba Buntu): “Você precisa aprender cozinhar, não para fazer para alguém, mas sim para você mesma”.

Ao chegar na África do Sul passei pelo normal processo de adaptação. Mesmo correndo o risco de ser mal interpretada querendo ou não, meu contato com a cultura sul-africana foi através de um olhar de uma afrodescendente na diáspora, nascida em terras brasileiras, no continente sul americano, colonizado por portugueses, descendente de escravizados, de família da classe trabalhadora e humilde. Todos estes aspectos não são irrelevantes, pelo contrário, influenciaram a forma que eu me deparei com a cultura sul-africana. Por mais que o povo negro compartilhe com muitas coisas similares em qualquer parte desse planeta, a colonização deixou rastro em todas as partes que ela tenha se instalado. Não dá para negar a influência inglesa em alguns pratos, na forma de se vestir, na língua falada comercialmente, na arquitetura das casas, escolas e prédios (lembrava muito os filmes estadunidenses com aquelas escadas do lado de fora dos prédios). Mas isto não significa que aspectos tradicionais da cultura sul africana tenham se perdido ou não existam mais, pelo contrário, o contraste entre a cultura inglesa, europeia, indiana e a cultura sul africana é muito presente e visível de diferenciar. Outra coisa que não dá para negar (talvez muitos torcerão o nariz) é que o continente africano não é mais o mesmo que 500 anos atrás, não é mais o mesmo quando nossos ancestrais foram sequestrados, não é mais o mesmo após a invasão e a colonização europeia, sem falar do processo de globalização que não poupou nenhum país intitulado como democrático.

Na África do Sul há 11 línguas oficiais (zulu, ndebele, sesotho do sul, sesotho do norte, swazi, tswana, tsonga, venda, xhosa, africâner e inglês). Nas ruas de Johanesburgo e Pretoria a maioria da população sul africana negra fala zulu, já os sul africanos brancos falam africâner. Os sul africanos falam mais de 3 línguas na média, é algo muito comum para eles. O inglês é reconhecido como língua do comércio e da ciência, mas não necessariamente é a língua mais falada. Eu lembro que a primeira vez que eu peguei ônibus em Johanesburgo, eu saudei um “Bom dia” para um motorista negro em inglês, ele não respondeu. Depois entendi como a questão da língua tradicional é importante no continente africano, e o inglês é a língua do colonizador. Se Crummell fosse do nosso tempo ela jamais defenderia a adoção da língua inglesa como a língua a ser implantada na construção de um estado negro africano. Já para nós descendentes de africanos escravizados e colonizados a língua que nós falamos que é a língua do colonizador é apenas uma língua. Fiquei pensando em que momento e de qual forma a língua tradicional falada pelos africanos escravizados se perdeu, pois se tivesse se mantido, talvez nós saberíamos de quais reinos nossos ascendentes eram originários.

Na minha percepção a língua pode se tornar um dos fatores determinantes de separação e impedimento de unidade de um povo. Muitas vezes me sentia isolada dos interessantes debates que eles travavam pelo fato de não dominar o inglês ou o zulu. Ao que me parece, o Brasil também está isolado do mundo, como se estivesse em uma ilhazinha bem distante, como se apenas países – que, aliás, muito poucos – que falam português conhecessem um pouco do tal país chamado Brasil. Geograficamente, o Brasil está mais perto da África do Sul do que os Estados Unidos, mas na prática está muito mais longe da África do Sul do que os EUA, e não é só porque os Estados Unidos é o império dominante no mundo, a língua é um fator determinante também de aproximação. Muitos sul africanos sabem da violência policial contra a população negra nos Estados Unidos, já ouviram falar do Movimento “Black Lives Matter”, mas não sabem da violência policial contra a população negra no Brasil e nunca ouviram falar da “Campanha Reaja Ou Será Morto, Reaja Ou Será Morta!

Em Johanesburgo, no bairro de Braamfontein, estudei em uma escola de inglês chamada ABC International e lá tive grande a oportunidade de ter contato com jovens estudantes de outros países, como Angola, Moçambique, República Democrática do Congo, República do Congo, Líbia, Burkina Faso, Somália, Gabão, Burundi e Turquia. A grande maioria destes estudantes era muito jovem, de classe média, que estava estudando primeiro inglês lá para depois ingressar em uma faculdade na África do Sul. Tirando os estudantes da Turquia que eram a minoria, a maior parte dos estudantes era de negros. Conversando com muitos estudantes africanos, eles diziam que as universidades de seus países não eram boas e reconhecidas em todo Continente Africano como as universidades da África do Sul. Um dado importante é que as universidades na África do Sul são todas pagas, seja pública ou privada, os estudantes pagam e os preços não são acessíveis. Em 21 de outubro de 2015, estudantes protestaram contra o aumento do preço das matrículas universitárias[i], como a polícia é igual em qualquer parte deste planeta, recebeu os estudantes com bala de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Gostaria de ter acompanhado esta manifestação, e outras também, pois os sul africanos são muito ativos na luta por melhores condições, pois quase toda semana havia um protesto, mas em todas as vezes que estava acontecendo uma manifestação, eu estava tendo aula.

Na escola, teve vários momentos que eu jamais esquecerei, um desses foi quando eu perguntei para uma senhora da Líbia o que ela achava do ex-presidente Gaddafi (como ela fala árabe, a nossa comunicação era em inglês, na verdade tentava me comunicar em inglês, pois não era algo fácil). Ela começou a chorar, disse que o Gaddafi era louco, mas antes da derrubada dele, a Líbia tinha escolas, boa educação, não tinha roubo, sequestro e as pessoas deixavam as portas abertas da casa e ninguém entrava para roubar, e hoje está tudo destruído, não dá mais para viver lá. Eu quase chorei junto com ela, e lembrei da esperança que muitos depositaram com a entrada do primeiro presidente negro nos Estados Unidos, até Nobel da Paz ele ganhou em 2009, e é o mesmo presidente que autorizou a intervenção na Líbia. Independente das contradições que era o Gaddafi, a Líbia tinha o maior IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – de todo o Continente Africano.

A maioria dos professores na escola era brancos, desta forma o meu único contato com os brancos foi através da escola. A relação entre professores e alunos era muito boa, saudável, respeitosa e tranquila. Um exemplo que ilustra bem esta relação foi quando eu me despedi de uma atenciosa professora de origem europeia e ela me passou seu WhatsApp e me pediu o meu contato, e disse que se eu precisasse de alguma ajuda ou tivesse dúvida com o inglês era para contatá-la. Mas como nem tudo são flores, a relação entre os sul africanos brancos de origem europeia com os sul africanos negros era bem diferente e isso se refletia dentro da sala de aula. O conflito e a divisão que o apartheid proporcionou é bem visível e muito presente ainda hoje. A mesma professora prestativa que se colocou à disposição para me ajudar é a mesma que em vários momentos fez comentários problemáticos e muitos entenderiam como racistas em relação aos sul africanos negros, na atual conjuntura, se fosse em alguns espaços aqui no Brasil, já teria dado processo e nota de repúdio. Mas entre os professores brancos o que mais me surpreendeu foi a relação que eles têm com a sua identidade europeia. Exceto um professor inglês, todos os demais professores brancos que eu tive contato nasceram na África do Sul e apenas seus avós ou bisavós não tinham nascidos no continente africano, mas todos remetiam sua identidade europeia como se estivesse apenas de passagem no país africano, como se fossem verdadeiros turistas que em uma determinada data regressariam para seus países de origem.

Algo também muito presente dentro da sala de aula era a explicita desaprovação que os professores brancos tinham em relação ao atual Presidente Jacob Zuma. (Zuma é de origem Zulu e faz parte do mesmo partido do Nelson Mandela, ANC: Congresso Nacional Africano). Na escola tinha um professor branco, nascido na África do Sul, mas de origem europeia, muito simpático, não tinha ideias reacionárias, era contra o Estado, contra o atual sistema e ateu, vivia se queixando da atual política do presidente Zuma que favorecia apenas a população negra. Ele dizia que se você fosse negro você teria um emprego garantido, agora se você fosse branco não seria fácil conseguir um emprego. Era unânime a ideia entre os professores brancos de que o Presidente Zuma era burro e sem competência para administrar o país. Já o ex-presidente Nelson Mandela era bem visto, em nenhum momento eu presenciei algum comentário negativo ou alguma crítica dos professores brancos ao Mandela.

Confesso que no início estranhei bastante a visível separação entre brancos e negros presente na África do Sul, há bairros de brancos, negros e de indianos. Não que essa separação no Brasil não esteja presente, mas você apenas consegue visualizar essa separação em espaços elitizados. Para os brasileiros que não tem a consciência de classe, raça e gênero, ou para os estrangeiros ou turistas que visitam o Brasil, realmente acreditam que o Brasil é um paraíso racial, o mito da democracia racial é algo muito presente. Na África do Sul o apartheid acabou oficialmente em 1994, mas ainda é algo muito recente, minha geração vivenciou este desumano sistema, é como se fosse uma mancha que paira no país, que afeta todos, não deixando ninguém imune. Na minha percepção, é algo que não foi superado e resolvido. Para ilustrar como este tema é muito complexo, um jovem estudante do Gabão chamado Axel, uma vez disse na sala de aula para uma professora que, para ele, o apartheid não tinha acabado, só tinha mudado de forma, ela respondeu que não era bem assim, pois hoje as pessoas estão juntas no supermercado.

O racismo está presente na África do Sul e é muito forte. Comparando o racismo no Brasil e o racismo na África do Sul, entendo que é algo que não dá para mensurar qual é o pior ou qual é o menos pior, pois o racismo é racismo e é ruim em qualquer lugar desta galáxia. Mas avalio que o racismo que existe na África do Sul é tão complexo quanto o racismo que existe no Brasil, é claro que a forma como o racismo se articula e atua nos dois países é bem diferente. Na África do Sul há uma enorme quantidade de representatividade negra atuando em vários espaços, na televisão, na política, há uma classe média negra considerável e mesmo correndo o risco de estar errada, entendo que há uma burguesia negra consolidada ou em processo de consolidação. Nas ruas, várias BMW dirigidas por negros, nos Shopping Center estilo JK Iguatemi e Cidade Jardim há vários negros e não trabalhando, e sim comprando e passeando, há bairros nobres e elitizados de negros… A representatividade está presente, mas o racismo também está, há uma enorme desigualdade social e racial, muito negros e brancos pobres, mas óbvio que a pobreza se concentra em maior medida na população negra, mas isso não significa que não tenha brancos pobres. Há muitos moradores de rua, alto índice de criminalidade, muitos negros estão fora das universidades e desempregados. No Brasil os debates de empoderamento e representatividade para o povo negro estão muito presentes, e entendo que estes dois temas são importantes, mas acredito que é um erro focarmos apenas nestes dois temas para superação do racismo, pois já se mostraram insuficientes.

A África do Sul é considerada um país em desenvolvimento, tem o 2º maior PIB do Continente Africano, só perdendo para a Nigéria e faz parte do BRICS. Há casas, ruas, lojas, escolas, shopping, museus, hospitais, igrejas (a Igreja Universal também está presente na África do Sul) e casas noturnas de altíssimo padrão, como também há bolsões de pobreza, alto índice de criminalidade e desigualdade social. Há uma enorme quantidade de estrangeiros africanos de outras partes do continente. Há muitos estrangeiros que vão para estudar, ou em busca de melhores condições de vida e trabalho. Como a taxa de desemprego não é baixa, a procura por emprego entre sul africanos e estrangeiros acaba caminhando para uma disputa que se transforma em xenofobia. A mais recente onda de xenofobia ocorreu em março de 2015, deixando 7 mortos e 307 presos[ii]. A divisão entre sul africanos negros e estrangeiros negros está presente na África do Sul. Na escola, todas as vezes que eu perguntava para os estudantes estrangeiros o que eles achavam dos sul africanos as respostas eram sempre as mesmas coisas. Na visão dos estudantes, os sul africanos não são pessoas do bem e muito racistas devido a onda de violência contra estrangeiros negros. Eu perguntava se a onda de violência contra os estrangeiros negros não era uma questão de xenofobia e não racismo, muitos concordavam com minha reflexão, mas teve um jovem angolano que questionou argumentando a seguinte questão: se é apenas xenofobia, como você explica a onda de violência apenas contra estrangeiros negros e não com estrangeiros brancos? Analisando hoje essa questão, entendo que ser apenas preto não subentende que estaremos unidos enquanto povo em lugar algum, pois a escravidão e a colonização nos dividiram e a luta de classes ainda nos divide.

Como em Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné Bissau falam o português, muitos sul africanos achavam que eu era de algum desses países e o tratamento que eles me davam era de um jeito, quando eu dizia que era brasileira, claramente o tratamento mudava. Vários africanos falavam que nunca tinham visto uma brasileira, de fato não há muitos brasileiros como angolanos ou moçambicanos, mas na verdade quando eles diziam que nunca tinham visto uma brasileira, eles estavam se referindo a brasileiros negros, pois mais de uma pessoa chegou a comentar que pensava que não existiam negros no Brasil. Essa questão nos fazem pensar qual a imagem que a elite brasileira passa de sua população lá fora, haja vista que o Brasil é o segundo país em população negra do mundo, só perdendo para a Nigéria. Outra questão para refletirmos é: quem são na sua grande maioria os brasileiros que viajam para fora do Brasil?

A questão racial também é complexa na África do Sul. No Brasil, os afrodescendentes que mais se aproximam do branco conseguem circular em alguns espaços mais do que os afrodescendentes mais retintos como já bem estudado pelo Clóvis Moura. Já na África do Sul, os miscigenados chamados de “colored” tinham alguns privilégios na época do apartheid, logo a separação entre miscigenado e sul africanos está presente no país. Não são todos os africanos que têm consciência racial, nem todos são pan-africanista ou conhecem pouco sobre esta ideologia, logo deixando de lado o romantismo, não são todos os africanos que consideram os afrodescendentes na diáspora como originários de um povo só, e sim apenas americanos, latinos, brasileiros ou até mesmo “colored”.

Eu tive a grande oportunidade de ter contato com africanos de outras nacionalidades dentro da organização Ebukhosini Solutions. Fiquei muita próxima de dois talentosos músicos irmãos ganenses chamados Ofoe e Tetteh. A inteligência, gentileza e sensibilidade deles eram incríveis, nós falávamos sobre vários temas complexos como machismo, feminismo, estupro, capitalismo, religião, sexualidade…. A conexão com eles dois era tão especial que talvez meus ancestrais sejam da região que hoje é denominada Gana, apesar de que algumas pessoas disseram para mim que meus traços são parecidos com os africanos da região da Etiópia. Fiquei muita próxima também de uma linda e guerreira ruandesa chamada Ukwezi (Ukwezi significa lua em Kinyarwanda) e de sua irmã mais nova chamada Pamela. Fiquei muito amiga delas, a Ukwezi tem uma linda filhinha chamada Izaro. Sempre que possível eu tinha aula de inglês com a Ukwezi, na verdade era muito mais do que aulas de inglês, eram aulas para a vida, ela era muito inteligente, nós falávamos de racismo, feminismo, movimento rastafári, líderes revolucionários, revolução e capitalismo. Ao contrário de alguns grupos, organizações e coletivos negros aqui no Brasil que negam ou se recusam a falar sobre o estrago do capitalismo para o povo negro, em todas as conversas sobre capitalismo que eu tive com os africanos (sul africanos, ganenses e ruandês) esse tema está muito óbvio, eles entendem e visualizam nitidamente o problema que o sistema capitalista gerou para o continente africano.

Os jovens sul africanos usam roupas bem parecidas com o estilo estadunidense, mas as roupas tradicionais africanas estão presentes nas ruas, nas lojas e nos eventos que eu tive a oportunidade de participar. Achei muito bacana o estilo das sul africanas, elas usam aqueles chapéus chiques que aqui no Brasil só vimos nos filmes estadunidenses. O estilo de cabelo varia bastante: cabelos com tranças, cabelos raspados, cabelos alisados, cabelos naturais e cabelos colocados (brazilian hair é o nome denominado pelas sul africanas, faz o maior sucesso no continente africano). Há muitos salões de beleza em Johanesburgo (eu vi bastante) e o interessante é que a foto da modelo estampada na maioria dos salões de beleza é da Rihanna. Diferente do Brasil, a diva na África do Sul é a Rihanna, e não a Beyoncé. Para todas as meninas que eu perguntava, preferiam a Rihanna a Beyoncé. Acredito que alguns dos motivos da preferência pela Rihanna são: primeiro, como elas falam também inglês, conseguem entender a mensagem que a Beyoncé e a Rihanna passam; segundo, a Rihanna representa a ideia de superação e possibilidade, pois nasceu em uma pequena e desconhecida ilha chamada Barbados e hoje faz sucesso no mundo inteiro.

A África do Sul tem uma vasta e rica cultura, além das culturas tradicionais, há muitos estrangeiros de outros países do continente africano. Em Johanesburgo tem um importante e interessante bairro pan-africanista chamado Yeoville, neste bairro há muito afrodescendentes da diáspora e africanos de outros países do continente africano como Nigéria, Gana, Congo, Angola, Moçambique…. pelo que eu entendi é considerado um bairro periférico também. Neste bairro tem uma livraria com vários livros com preços acessíveis de autores pan-africanistas. É neste bairro que eu fazia Kemetic Yoga, essa atividade é oferecida gratuitamente todos os sábados pela organização Ebukhosini Solutions. Em cada encontro era um voluntário que se dedicava a passar seus conhecimentos, eu tive alegria de fazer aulas com a Mama T, Siyabonga, Pitsira, Ursula e Ted Niacky (com ele eu fiz uma interessante aula de Kemetic Boxing). Nesse bairro tem muitos rastas também, com muitas cores do reagge e do pan-africanismo, há imagens do Bob Marley e Fela Kuti.

Na primeira semana que eu cheguei na África do Sul eu fui para um maravilhoso show de jazz em Johanesburgo. O jazz e soul estão muito presentes no país, eu lembro que uma vez entrei em um ônibus ao som de Billy Paul – canção Me and Mrs. Jones. É óbvio que o hip hop e os estilos musicais tradicionais africanos também estão presentes no país. Mas o estilo musical que os jovens escutam bastante é o house music, na verdade não conheci ninguém que não gostasse de house music. Eu lembro que no dia do meu aniversário eu fui para uma festa chamada “Obrigado”, nesta festa supostamente tocaria músicas brasileiras e latinas, os DJs tocaram algumas MPB e sambas, mas tudo no estilo eletrônico, eu não sei como, mas sambei até não aguentar mais, mesmo na batida eletrônica. No show da virada do ano em Johanesburgo o estilo musical mais tocado e dominante era o eletrônico, o house music é uma verdadeira febre para os jovens. Já dentro da organização, os estilos que eles mais escutavam eram reggae, jazz e soul, mas a canção que eu tive a felicidade de conhecer e que mais me marcou foi do “Wambali – Ndimba Ku Ndimba”. [iii]

Na África do Sul o transporte mais comum e usado pela população negra são os chamados táxis (são parecido com lotações para nós), estas lotações são privadas, o custo não é muito caro e você vai sentado, (diferente do transporte público aqui em São Paulo, que você paga caro e com muita sorte, luta, briga e discussão consegue um lugarzinho sentado). As lotações geralmente não estão em situações boas e, infelizmente, há muito acidentes. Há ônibus e trens também, mais o que mais me chamou atenção foi o trem bala chamado Gautrain que liga Sandton ao aeroporto, e liga também Johanesburgo a Pretória. Foi a primeira vez que andei em um trem bala, o trem é muito moderno, bonito e rápido, o problema que é não é um transporte acessível à população local, há muitos turistas e brancos, você encontra negros também, mas da classe média e alta.

Tive a oportunidade de visitar a Namíbia através de uma organização chamada Namibian Brazil Friendship Association (NBFA). Esta organização me convidou a fazer várias apresentações sobre a situação da população negra no Brasil (violência policial, racismo e homicídios do povo negro) em várias universidades e organizações. Fiquei 4 dias na capital em Windhoek (entre os dias 19 a 23 de outubro de 2015), em uma pousada que tinha, na sua grande maioria, angolanos. A Angola faz fronteira com a Namíbia, logo, há muitos angolanos estudando e morando na Namíbia. Nas apresentações que eu fiz nas universidades, os estudantes eram muito poucos e conheciam praticamente nada sobre o Brasil. A apresentação que teve maior número de jovens foi em uma organização fora da universidade chamada Young Achievers Empowerment Project. O encontro foi na sede da organização, foi a apresentação mais interativa, os jovens fizeram muitas perguntas. Entre várias perguntas, uma que mais me chamou a atenção foi a pergunta de uma linda jovem namibiana, ela perguntou se eu me considerava negra. Respondi que sim e perguntei porque não me consideraria negra, ela respondeu que o motivo da pergunta era porque meu cabelo era diferente e agradeceu por eu me considerar negra.

A República da Namíbia tem uma linda história de luta e resistência, conseguiu sua independência da África do Sul através de muita luta na década de 90. A língua oficial é o inglês, mas muitos namibianos falam oshiwambo como sua primeira língua, outras línguas faladas também são nama/damara, kavango,hereró, africâner e o alemão (estas duas últimas falada pelos brancos). Eu vi muitas lojas e escolas com informações em alemão, há muitos alemães ou pessoas de origem alemã na Namíbia. A arquitetura dos prédios e o povo namibiano lembram muito os sul africanos, as ruas em Windhoek são extremamente limpas, lembra a cidade de Pretória na África do Sul. A forma comum de se locomover na capital da Namíbia é através de táxi, diferente do Brasil, o táxi é barato. É uma forma de transporte privado, mas a forma de utilização lembra o transporte público porque os taxistas não atendem um passageiro apenas, em uma viagem eles geralmente atendem 4 passageiros ao mesmo tempo. Há ônibus, mas ainda são muito poucos, o governo ainda está no processo de implantação de transporte público que atenda a demanda da população.

A incrível oportunidade de ter ficado com uma família pan-africanista foi uma das experiências mais significativas que eu tive em Azania. O caloroso acolhimento de toda a família, que morava e frequentava a eBukhosin, é algo impossível de descrever com apenas palavras. O cuidado que todos me receberam foram verdadeiros gestos de uma família que estava recebendo o regresso da filha mais nova, uma filha que estava de férias em algum país um pouco distante, mas que nunca deixou de ser esquecida e com prazo de retorno estabelecido. A cumplicidade e a vivência na casa ajudaram também para o fortalecimento desse sentimento de filha, tendo como pais Baba Bantu e Mama T, tendo como irmãos e irmãs (correndo o risco de faltar alguém) Ofoe, Siyabonga Moringe, Tetteh, PitsiRa, Thabiso, Patrick, Siyabonga Lembede, Phumulani, Mabule, Thabo, Ukwezi, Disebo, Mbaliyethu, Pamela, Nonhlanhla… As atividades que eu tive a grande oportunidade de participar como seminários, palestras, Afrikan Lunch, Yoga, eventos, Kwanzaa, debates e encontros com outros jovens líderes foram fundamentais para reforçar o espírito e atos de unidade, solidariedade, disciplina, práticas revolucionárias e um orgânico e ativo pan-africanismo como algo possível e viável. Hoje visualizo que o conjunto de todas essas atividades foi para além da aprendizagem, se tornou uma verdadeira transformação espiritual e mental. É algo que está e sempre estará presente em cada direção, passo e posicionamento na minha vida em diante. Sou grata a família eBukhosini e a todas que diretamente e indiretamente fizeram parte dessa maravilhosa oportunidade, experiência e aprendizado.

A experiência e aprendizado que eu tive na África do Sul e na Namibia foram incríveis, algo que levarei para vida toda. Uma das coisas que eu tive a oportunidade de vivenciar e participar foi do Kwanzaa (é uma celebração comemorada entre os dias 26 de Dezembro a 1 de Janeiro por milhares de africanos e afrodescendentes ao redor do mundo). Desde 2002, a Ebukhosini Solutions junto com outras organizações realizam a celebração do Kwanzaa, entre várias atividades tem música, poesia e boa comida. Eu já tinha ouvido falar dessa celebração, mas confesso que conhecia muito pouco, não entendia o real objetivo e nunca tinha participado. Hoje eu entendo a importância dessa celebração, e entre os princípios do Kwanzaa (Umoja: união; Kujichagulia: auto-determinação; Ujima: trabalho coletivo e responsabilidade; Ujamaa: economia cooperativa; Nia: propósito; Kuumba: criatividade; Imani: fé), a união é o que mais me chamou a atenção. Na celebração havia muitos africanos de outras nacionalidades e de várias religiões. A celebração do Kwanzaa no Brasil e em outras partes desse planeta pode ser o caminho ou uma das possibilidades para construção da sonhada unidade para o povo africano dentro e fora do continente africano.

Veja as fotos aqui: https://flic.kr/s/aHskuZ31C7

[i]http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2015/10/21/estudantes-enfrentam-policia-em-frente-ao-parlamento-na-africa-do-sul.htm

[ii]http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/04/1618597-ataques-xenofobos-na-africa-do-sul-deixam-7-mortos-e-307-presos.shtml

[iii] Wambali – Ndimba Ku Ndimba: https://www.youtube.com/watch?v=uFiWZceyRI4&feature=youtu.be

Rafaela Araújo

Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Paulista e integrante do Grupo KILOMBAGEM

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1 Response

  1. valeria disse:

    O capitalismo lhe trouxe problemas por ser negra, minha filha! va morar em Cuba, deve ser melhor do que morar em um pais Capitalista. Retardada!

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