Nonagésimo aniversário de Fanon – Cultura e luta

O texto de hoje é “Fundamento Recíprocos da Cultura Nacional e das Lutas de Libertação”, escrito para a conferência de Fanon ao II Congresso de Artistas e Escritores Negros, realizado em Roma no ano de 1959 pela revista Présence Africaine.

II Congresso de Artistas e Escritores Negros, Roma – 1959

Com seus 150 participantes – entre eles dois brasileiros – e a adoção do idioma francês como língua oficial, o II Congresso não foi tão frequentado como o primeiro que havia contado com a presença de 600 pessoas, em 1956. À esta altura, Fanon já era internacionalmente conhecido e sua presença destacou-se entre os participantes.

É verdade, porém que a sua posição era dissonante às perspectivas defendidas pelos demais participantes. Alione Diop, por exemplo[1], diante à presença do Papa João XXIII no evento, defendeu a Negritude como expressão de um gênio negro que precisa se des-ocidentalizar sem, contudo, abrir mão dos presentes do ocidente, a saber, o cristianismo. No mesmo caminho, Jean Price-Mars, embaixador do Haiti em París, retomou a paleontologia e a pré-história para afirmar o caráter melanodérmico dos primeiros seres humanos e Cheik Anta Diop, no mesmo caminho, apresentou sua tese sobre a negritude dos antigos egípcios e a influência desta civilização na cultura grega. Hamadou Hampaté Bá, por outro lado, falou das importância das crenças africanas tradicionais, retomando inclusive os estudos sobre a filosofia Bantu, de Placide Temples. E Senghor defendeu a cultura como espírito de uma civilização que precisa ser preservada diante das forças assimilacionistas.

Fanon, entretanto, organicamente ligado aos movimentos de libertação, ierá defender em sua fala que a “condição de existência da cultura é pois a libertação nacional, o renascimento do Estado” (FANON, 2010:280). Isso significava que, para ele, o caminho que deveria ser adotado pelos intelectuais presentes não deveria se resumir ao enaltecimento da cultura e origem africana – sistematicamente negada pelo julgo colonial – mas, sim, e principalmente, o engajamento dos artistas e intelectuais de cultura junto ao povo colonizado e seus saberes de forma a construir com eles uma praxis política (revolucionária) de transformação das condições concretas de existência.

Fora desse movimento prático-sensível, para ele, restariam apenas duas opções ao intelectual de cultura: adorar à cultura do colonizador, legitimando-a enganosamente como a única verdadeiramente válida – contribuindo assim para disseminar preconceitos em relação à cultura autóctone – ou, por outro lado, lançar-se apaixonadamente à cultura dos povos colonizados, cultura essa “zumbificada”, “substancializada”, “solidificada” e “esterilizada” pelo colonialismo.

Esta segunda opção – que para Fanon seria partilhada pelos intelectuais da negritude – foi alvo de duras críticas ao longo deste e de outros textos escritos pelo autor. É o colonialismo que está interessado no culto à uma cultura estática e catalogável pelas instituições antropológicas da metrópolis. À luta de libertação, interessaria, portanto, não o fechamento da noção de cultura em um movimento de eterno retorno, mas, pelo contrário, o encontro à uma noção viva e dinâmica de cultura que a relacione, inclusive, com os contextos em que emerge.

O contexto em questão é o colonial e a cultura, nesse quadro, será sempre restringida por forças que impedem o seu verdadeiro florecer. Por esta razão, argumenta, qualquer tentativa de resgate ou valorização da cultura que se exima de confrontar, ao mesmo tempo, as bases sob o qual o colonialismo se estrutura, acaba se limitando a um movimento estéril.PanAfrican   Por isso, a posição de Fanon estava mais alinhada com a de Ahmed Sekou Touré, da Guiné Conacry:

Para participar na revolução africana não basta escrever uma canção revolucionária, é preciso forjar a revolução junto com o povo. E se nós a forjarmos junto com o povo, as canções surgirão por si mesmas e delas mesmas.

 

Boa leitura!!!

Acesse o texto:

 

[1] Alione Diop foi líder do periódico Présence Africaine e principal articulador do movimento de negritude juntamente com Césaire, Senghor e Damás.

 

Não vai pra grupo: Diga não!!!

 

MOBILIZAÇÃO CONTRA A REDUÇÃO DA IDADE PENAL 

Deivison Nkosi

Professor e pesquisador. Integrante do Grupo KILOMBAGEM

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1 Response

  1. Juliano Pereira disse:

    Como se distanciar do olhar colonizado??? É possível viver em um mundo que se estruturou a partir da colonização??? Não estaria Fanon contaminado pelo olhar radicalizado em prol da libertação??? E qual é a crítica podemos ter do olhar que busca libertação do percepção colonial???

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