O eterno Déjà vu do suspeito padrão

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“Vou te dizer uma coisa Algumas pessoas têm tudo Algumas pessoas têm nada Algumas pessoas têm esperanças e sonhos Algumas pessoas têm modos e meios

Nós somos sobreviventes, sim,a sobrevivência negra.” (Bob Marley – Survival)

 Nota de repúdio em resposta às justificativas publicadas pela gerência do Tupinikim Pizza Bar a respeito da revista na saída da casa de show na noite de quinta-feira, 21 de abril de 2106.

Na noite da última quinta-feira, 21/04, fomos alvo do “suspeito padrão” no Tupinikim Pizza Bar em Santo André, no Grande ABC Paulista, em noite de tributo a Bob Marley, em que havia poucos pretos e pretas, éramos praticamente as únicas com blacks e turbantes. Na saída da casa tivemos NOSSAS BOLSAS REVISTADAS por uma funcionária,  após pagarmos nossas comandas. Sem muitas explicações sobre os critérios, estranhamos o procedimento, questionando se  TODOS ESTAVAM SENDO REVISTADOS. A resposta da funcionária foi vaga. Não havíamos visualizado aviso algum nas paredes ou mesmo no caixa sobre uma revista na saída, que é totalmente incomum na noite Paulista, em que muitos bares e casas de shows revistam na entrada.

Pois bem, hoje pela manhã, fui à página do bar e questionei a ação, o questionamento foi publicado também no meu perfil pessoal (no facebook) e logo compartilhado por vários camaradas indignados, gerando polêmica e debate, inclusive nos acusando de linchamento público sem ouvir as justificativas do bar. Quero explicitar que nós do Kilombagem não somos adeptos dos escrachos e linchamentos públicos, e  procuramos analisar os fatos de forma objetiva, pra não cometer injustiças, ainda que nós sejamos alvo das mesmas todos os dias. Então partirei da resposta dada pelo bar (publicada na íntegra ao final dessa nota), em que destaco o seguinte trecho:

“Ontem, 21/04, durante o evento, nossas paredes foram pichadas. Então, nossa equipe de segurança, realizou vistorias com os clientes que saíam da casa, na tentativa de localizar o autor da pichação e suas latas de spray. Além de você, vários clientes também foram revistados, sem o objetivo de constranger, ou discriminar alguém. Repito: o único objetivo da vistoria foi de identificar o autor da pichação, independente da sua cor da pele, ou qualquer outro atributo. O ATO NÃO FOI RACISTA!”

A mensagem afirma que “Além de (nós) você, vários clientes também foram revistados“, deixando objetivamente explícito que NÃO FORAM TODOS OS CLIENTES, VÁRIOS e TODOS são OBJETIVAMENTE DIFERENTES. Então quais foram os critérios adotados pela casa? A cor da pele? A aparência? O comportamento? Outra, se a “tentativa (era) de localizar o autor da pichação e suas latas de spray“, por que revistar bolsas que mal cabiam celulares, quiçá uma lata de spray? E ainda podemos dizer que a afirmação de que  “O ATO NÃO FOI RACISTA!”, parte da premissa do senso comum da Democracia Racial no Brasil de reconhecer que o racismo existe, mas não reconhecer que se pratica racismo, porém, HÁ RACISMO SEM RACISTAS? As dúvidas permanecem.

Isto posto, retomo Ângela Davis em uma entrevista recente para TV Brasil (disponível no Youtube), quando ela expõe que devemos canalizar nossa energia ao combate do racismo institucional, esse que nos mata através da PM, que nos exclui das universidades, dos empregos e, que sistematicamente nos mantém à margem da sociedade capitalista, sem ignorar o racismo individual e cotidiano que nos adoece, nos intimida, constrange e acaba com nossa auto estima.

Logo, o que poderia ter sido um rolê da hora entre amigas numa noite linda de outono,  se torna quase sempre um caso de racismo, com debates, denúncias, manifestos. É vergonhoso esse tipo de atitude num bar cujo palco já recebeu bandas como UAFRO, Conde Favela, Ba-Boom, Mcs como Katiara Oliveira e Ba Kimbuta, que são nossas referências de resistência e luta.

Encerro dizendo que pedir desculpas não é o suficiente, quando o RACISMO MATA, é preciso providências que eliminem esse tipo de ação, porque NUNCA MAIS VAMOS NOS CALAR. O suspeito padrão está culturalmente naturalizado, e uma de nossas tarefas enquanto Kilombagem é combater e desconstruir essa ideologia, difundindo e divulgando ideias revolucionárias Dessa forma NÃO BANALIZAR OU MINIMIZAR SITUAÇÕES COMO ESSA É NOSSO DEVER ENQUANTO MILITANTES NEGRAS PANAFRICANISTAS DE ESQUERDA.

RACISTAS NÃO PASSARÃO!

CONTRA O GENOCÍDIO DO POVO NEGRO FÍSICA E MENTALMENTE!

Janaína Monteiro – Professora e militante do Kilombagem

Na íntegra a mensagem que enviei na página do Bar:

“Fui poucas vezes ao bar, mas ontem foi a gota d’água, FOMOS REVISTADASNA SAÍDA DO BAR,após pagar nossas comandas devidamente, o que nunca vi em nenhuma balada, mesmo nas mais caras de Sampa. Um tributo a Bob Marley mas tinham poucos pretos e pretas, éramos as poucas com blacks e turbantes. Já estive em shows no bar onde a quebrada estava em peso e não passamos por isso. Estão assumindo sua conduta RACISTA? Ou não têm se dado conta disso? Queremos esclarecimentos: TODAS AS PESSOAS FORAM REVISTADAS NA SAÍDA?”

Na íntegra a resposta do Tupinikim :

Olá Janaina, boa tarde!
Primeiramente, vale ressaltar que o Tupinikim é um espaço voltado para a cultura afro descendente, pois 80% da nossa programação é direcionada para esta cultura.
Todas as Quartas temos samba de raiz na casa, as Quintas-feiras são para o público do reggae (voltado para a cultura jamaicana) e nas sextas, temos a noite Marakasi, que é para o público do Hip Hop.
Com esta grade de programação, evidencia que não temos qualquer tipo de preconceito ou discriminação com quem quer que seja. Nossas portas estão abertas para todos os públicos, sem distinção de qualquer natureza.
Aqui, pregamos a paz, lutamos pela arte e pela diversidade cultural.
Ontem, 21/04, durante o evento, nossas paredes foram pichadas. Então, nossa equipe de segurança, realizou vistorias com os clientes que saíam da casa, na tentativa de localizar o autor da pichação e suas latas de spray. Além de você, vários clientes também foram revistados, sem o objetivo de constranger, ou discriminar alguém. Repito: o único objetivo da vistoria foi de identificar o autor da pichação, independente da sua cor da pele, ou qualquer outro atributo. O ATO NÃO FOI RACISTA!
De qualquer forma, pedimos desculpas se a atitude da nossa equipe de segurança te causou algum constrangimento, pois de fato, não é e nunca será nossa intenção. Nossa equipe é constantemente treinada e recebe orientações quanto à forma de atender nossos clientes, que são muito especiais para nós. Não compactuamos com atitudes, palavras ou gestos racistas e discriminatórios, dentro ou fora de nosso espaço.
Nossas portas permanecem abertas para você e seus amigos voltarem para curtir nossa programação e caso queira bater um papo pessoalmente, estamos aqui, disponíveis para atendê-la.
Atenciosamente,
Diretoria Tupinikim Pizza Bar e Lounge

(Link: https://www.facebook.com/profjanaina.mont/activity/1083538968371621?comment_id=1083604211698430&reply_comment_id=1083684371690414&notif_t=open_graph_action_comment&notif_id=1461344371345903)

 

 

 

Janaina Monteiro

Formada em Ciências Sociais pela Fundação Santo André. Professora de Geografia e Sociologia da rede pública e particular. Militante do coletivo Kilombagem.

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