O Futuro da Música Depois da Morte do CD

Calma, não sou eu que acredito que o CD está prestes a acabar e creio que o sociológo Sérgio Amadeu e o jornalista cultural Irineu Franco Perpétuo também não estão totalmente convencidos disso apesar de terem dado o título O Futuro da Música Depois da Morte do CD ao livro que organizaram e foi recentemente disponibilizado gratuitamente online em formato PDF segundo licença Creative Commons BY-NC 2.5.

Introdução

Eu não tenho informação exata sobre o que aconteceu com as vendas de máquinas de escrever quando os computadores começaram a se disseminar pelo planeta, mas imagino que seus números contariam uma história muito similar às cifras de negociação de CDs que andaram me caindo nas mãos ultimamente.

Os dados mais recentes da ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Discos) são de 2007 e mostram um encolhimento, quer no valor (­31,2%), quer no número de unidades (­17,2%) de Cds+DVDs comercializados no país. Conforme se pode ser facilmente conferido no site da entidade (http://www.abpd.org.br), o encolhimento vem sendo constante desde 2004: de 66 milhões de unidades vendidas naquele ano, o número se reduziu progressivamente para 52,9 milhões (2005) e 37,7 milhões (2006), até chegar à cifra atual, de 31,3 milhões.

Internacionalmente, os números não são mais auspiciosos para os grandes negociantes de discos. Dados da IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica) mostram que, em 2007, os únicos dentre os 20% principais mercados fonográficos do planeta a crescimento foram Índia (12%) e África do Sul (2%). Líderes, os EUA encolheram 9%; o Reino Unido, em terceiro, diminuiu 13%; na França e na Itália, a redução foi de 17%, e chegou a 20% na Espanha.

O que teria acontecido? Será que, de uma hora para a outra, ternos-iamos tornado todos insensíveis aos encantos de Euterpe e decidimos, subitamente, adotar um estilo de vida sem sons? Ou havernos-íamos subitamente convertido em uma sociedade de puristas, a rejeitar peremptoriamente o som gravado, visto como um simulacro, para nos concentrarmos apenas na “coisa em si”, a performance musical ao vivo?

Bem, talvez não seja nada disso, e estejamos simplesmente vivenciando uma troca de paradigma não na audição, mas na distribuição do som gravado. Fala-se muito no crescimento das vendas de música digital; porém, o que parece estar em questão, aqui, é menos o CD como suporte físico do que sua condição de protagonista e sujeito único da difusão de música no planeta. É nesse sentido que nos soa legítimo falar na “morte” do CD.

Porque talvez não estejamos simplesmente diante de mais um período de substituição de formatos, em que o CD, depois de tomar a primazia do vinil, estaria cedendo seu lugar ao, digamos, MP3. O cenário atual parece consideravelmente mais complexo, colocando em xeque o próprio paradigma de circulação global de bens culturais.

Pois, se, com o CD, digitalizou-se o som gravado, hoje em dia, é todo o acervo cultural da humanidade que se encontra em vias de estar digitalizado, na internet. No livro O Museu Imaginário, publicado em 1947, o escritor francês André Malraux celebra um fato que, para nós, hoje parece banal, mas, naquela época, constituía inovação técnica nada desprezível: o livro de arte, a oferecer a qualquer um, seja ele estudante ou simplesmente um leigo interessado, o acesso a uma gama de obras maior do que o acervo de qualquer museu – e jamais disponível anteriormente na História. Se, no séc. XIX, um gênio como Baudelaire teorizava sobre estética sem jamais ter tido a oportunidade de ver as obras primas de El Greco, de Michelangelo ou de Goya, graças às reproduções presentes nos livros de arte, esses grandes nomes de repente estavam à disposição de todos. Abria-se, assim, um enorme Museu Imaginário, no qual era possível comparar, refletir, confrontar e (suspeito que Malraux só não usou o termo porque ele ainda não existia) remixar as criações que formam o cânone artístico da Humanidade.

Se o livro de Malraux trata apenas das artes plásticas, as ferramentas da cultura digital permitem que se fale de um Museu Imaginário em todas as áreas da criação artística. As novas tecnologias tornam possível o armazenamento, acesso e compartilhamento do Museu Imaginário das artes plásticas, do cinema, da literatura – e da música.

A pergunta é se o acesso a esse museu será franco e irrestrito, ou se os velhos mercadores de CDs irão se converter em seus porteiros, cobrando a quantia que lhes der na telha pelo bilhete de acesso.

Irineu Franco Perpetuo
Sergio Amadeu da Silveira
(Orgs.)

PERPETUO; SILVEIRA – O Futuro Da Musica Depois Da Morte Do CD

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O Futuro da Música Depois da Morte do CD

Ike Banto

Ike Banto, mora em Campinas, interior de São Paulo, atua no Fórum de Hip Hop do Interior, autodidáta é entusiasta e usuário fervoroso de Software Livre, trampa na área de tecnologia a 05 anos, como designer, diagramador e web-designers freelance, porém a meta e trabalhar com animação 2d e 3d (eu chego la!!! :) ), no Kilombagem que participa desde de 2009 cuida da infra em Web do grupo.

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