O Ornitorrinco – Chico de Oliveira

O Ornitorrinco*

Francisco de Oliveira

Ornitorrinco – s.m.(Do gr. ornis, ornithos. ave +Rhynkhos. bico.) Ornithorhynchus anatinus.

Mamífero monotremo, da subclasse dos prototérios, adaptado à vida aquática. Alcança 40cm de comprimento, tem bico córneo,

semelhante ao bico de pato, pés espalmados e rabo chato. É ovíparo.Ocorre na Austrália e na Tasmânia. (Família dos ornitorrinquídeos).

Encicl. O ornitorrinco vive em lagos e rios, nas margem dos quais escava tocas que se abrem dentro d‘água.

Os filhotes alimentam-selambendo o leite que escorre nos pêlos peitorais

da mãe, pois esta não apresenta mamas. O macho tem um esporão venenoso nas patas posteriores.

Este animal conserva certas características reptilianas, principalmente uma homeotermia imperfeita.

Grande Enciclópedia Larousse Cultural.vol.18, Ofa-Per, São Paulo, Nova Cultural, 1998.

*Foi na defesa de tese de doutoramento de Caico, amigão dos tempos sombrios, conhecido socialmente como Carlos Eduardo Fernandez da Silveira, de cuja banca honrosamente fazia parte no Instituto de Economia da Universidade de Campinas em 19/out/2001 que, de repente, deu-me um estalo: a sociedade e economia que ele descrevia, em seus impasses e combinações exdrúxulas, só podia ser um ornitorrinco. Devo-lhe mais essa, Caicão.

De Darwin a Prebisch/Furtado

A teoria do subdesenvolvimento, única elaboração original alternativa à teoria do crescimento de origem clássica, Smith e Ricardo, não é, decididamente, uma teoria evolucionista. Sabe-se que o evolucionismo influiu praticamente em todos os campos científicos, inclusive em Marx, que nutria grande admiração pelo cientista inglês que moldou um dos mais importantes paradigmas científicos de todos os tempos, cuja predominância hoje é quase absoluta. Mas tanto Marx quanto os teóricos do subdesenvolvimento não eram evolucionistas. O primeiro porque sua teoria trabalha com rupturas, com a tríade tese-antítese-síntese, e o motor da história são os interêsses concretos das classes, vale dizer a consciência, mesmo imperfeita, dos sujeitos constitutivos: “os homens fazem a história…” O evolucionismo não comporta “consciência”, mas uma seleção natural pela eliminação dos menos aptos, dentro do acaso. Já os cepalinos foram influenciados por Weber – e nas margens também por Marx – cujo paradigma é o da singularidade, que não é uma seleção mas uma ação com sentido: não se cogita, weberianamente, de uma “finalidade” que no evolucionismo aparece como sendo a da reprodução da espécie.

O subdesenvolvimento assim, não se inscrevia numa cadeia de evolução que começava no mundo primitivo até alcançar, através de estágios sucessivos, o pleno desenvolvimento. Antes, tratou-se de uma singularidade histórica, a forma do desenvolvimento capitalista nas ex-colônias transformadas em periferia, cuja função histórica esteve em fornecer elementos para a acumulação de capital no centro. Essa relação, que permaneceu apesar de intensas transformações, a impediu, precisamente de “evoluir” para estágios superiores da acumulação capitalista, vale dizer, para igualar-se ao centro dinâmico, conquanto lhe injetou reiteradamente elementos de atualização. O marxismo, dispondo do mais formidável arsenal de crítica à economia clássica, tem uma teoria do desenvolvimento capitalista na própria teoria da acumulação de capital, mas falhou em especificar-lhe as formas históricas concretas, sobretudo em relação à periferia. Quando o tentou, obteve alguns dos grandes resultados de caráter mais geral, com a “via prussiana” e a “revolução passiva”. Mas por muito tempo, um “evolucionismo” marxista esteve em larga voga, o que resultou numa raquítica teoria sobre a periferia capitalista, dentro das etapas de Stálin, do comunismo primitivo pré-classes ao comunismo pós-classes. No caso latinoamericano esse etapismo levou a equívocos de estratégia política, e a teoria do subdesenvolvimento era considerada “reformista” e aliada do imperialismo norteamericano.

O subdesenvolvimento poderia se inscrever como um caso da “revolução passiva”, que é a opção interpretativa de Carlos Nelson Coutinho e Luis Jorge Werneck Vianna1, mas de qualquer modo falta-lhes, para se igualar à teorização do subdesenvolvimento, as específicas condições latinoamericanas, vale dizer, o estatuto de ex-colônias, que lhe dá especificidade política, e o estatuto rebaixado da questão da força de trabalho, escravismo e “encomiendas”, que lhe confere especificidade social . Florestan Fernandes aproximou-se de uma interpretação na mesma linha em A Revolução Burguesa no Brasil, mas deve-se reconhecer sua dívida para com a originalidade cepalina-furtadiana. Todos, de alguma forma, incluindo-se Furtado, são devedores, na interpretação do Brasil, dos clássicos dos anos trinta, que se esmeraram em marcar a originalidade da colônia, da sociabilidade forjada pela summa da herança ibérica com as condições da exploração colonial fundada no escravismo.

Como singularidade e não elo na cadeia do desenvolvimento, e pela “consciência”, o subdesenvolvimento não era, exatamente, uma evolução truncada, mas uma produção da dependência pela conjunção de lugar na divisão internacional do trabalho capitalista e articulação dos interêsses internos. Por isso mesmo, havia uma abertura a partir da luta interna das classes, articulada com uma mudança na divisão internacional do trabalho capitalista. Algo que, no Brasil, ganhou contornos desde a Revolução de 1930 e adquiriu consistência com a chamada industrialização por substituição de importações. Celso Furtado, em Formação Econômica do Brasil, fornece a chave dessa conjunção: crise mundial de Trinta e revolução interna, uma espécie de 18 de Brumário brasileiro, em que a industrialização surge como projeto de dominação por outras formas da divisão social do trabalho, mesmo às custas do derrocamento da burguesia cafeicultora do seu lugar central O termo sub-desenvolvimento não é neutro: ele revela, pelo prefixo “sub”, que a formação periférica assim constituída tinha lugar numa divisão internacional do trabalho capitalista, portanto hierarquizada, sem o que o próprio conceito não faria sentido. Mas não é etapista tanto no sentido estalinista quanto evolucionista.

A Crítica à Razão Dualista tenta apanhar esses caminhos cruzados: como “crítica” ela pertence ao campo marxista, e como especificidade, ao campo cepalino. Embora arroubos do tempo tenham inscrito nela invectivas contra os cepalinos, eu já me penintenciei desses equívocos, a forma tôsca de ajudar a introduzir novos elementos na construção da especificidade da forma brasileira do subdesenvolvimento. Uma espécie de dívida do vício à virtude. Ela é cepalina e marxista no sentido de mostrar como a articulação das formas econômicas subdesenvolvidas incluía a política, não como externalidade, mas como estruturante: Furtado havia tratado disso quando interpretou a resolução da crise de superprodução de café nos anos da grande crise de 30, mas depois abandonou essa grande abertura, e o 18 de Brumário já havia ensinado aos marxistas que a política não é externa aos movimentos de classe, isto é, a classe se faz na luta de classes, mas eles também desaprenderam a lição. Retomei essas duas perspectivas para tentar entender como e porque lideranças como Vargas e suas criaturas, o PTB – Partido Trabalhista Brasileiro e o Partido Social-Democrático, o lendário PSD, haviam presidido a industrialização brasileira, arrancando especificamente de bases rurais: o moderno, a indústria, alimentando-se do atrasado, a economia de subsistência.

Três pontos receberam atenção, para completar a forma específica do subdesenvolvimento brasileiro. O primeiro deles dizia respeito à função da agricultura de subsistência para a acumulação interna de capital. Aqui, a Cepal, Prebisch e Furtado2, haviam empacado com a tese do setor atrasado como obstáculo ao desenvolvimento, tese aliás que esteve muito em moda na teorização contemporânea, como a de Arthur Lewis sobre a formação do salário em condições de excesso de mão-de-obra. Tal tese não encontrava sustentação histórica, posto que a economia brasileira experimentou uma taxa secular de crescimento desde o século XIX, que não encontra paralelo em qualquer outra economia capitalista no mundo.3 E os estudos sobre o café mostraram que o modo inicial de sua expansão utilizou a agricultura de subsistência dos colonos, intercalada com o café, para prover-lhes o sustento, o que depois era incorporado pela cultura do café. Benfeitorias como “acumulação primitiva”. Aliás, o próprio Furtado, ao estudar as culturas de subsistência tanto no Nordeste quanto em Minas, viu sua “função” na formação do fundo de acumulação e na expansão dos mercados a partir de São Paulo. Sustentei, então, que a agricultura atrasada financiava a agricultura moderna e a industrialização.

Aliás, o nascimento do moderno sistema bancário brasileiro, que teve em Minas um de seus principais pontos de emergência, mostrava essa relação entre as formas de subsistência e o setor mais avançado do capital, tema aliás presente em Marx n’As Guerras Civis na França. Apontei, então, que as culturas de subsistência tanto ajudavam a baixar o custo de reprodução da força de trabalho nas cidades, o que facilitava a acumulação de capital industrial, quanto produzia um excedente não-reinvertível nela mesma, que se escoava para financiar a acumulação urbana. Um trabalho de Francisco Sá Jr., que apareceu à mesma época, explorava esse insight para as específicas condições da agricultura de subsistência do Nordeste. Consegui publicá-lo na Estudos Cebrap4, mas nunca mais meu xará Chico voltou ao assunto, e o seu clássico estudo não voltou a ser frequentado. E Chico mesmo desapareceu, com sua figura de andarilho quase Conselheiro, logo êle um carioca da gema, da velha cêpa dos Sá, desde Estácio, que foi colonizador antes de ser estação do melhor samba carioca.

Esse conjunto de imbricações entre agricultura de subsistência, sistema bancário, financiamento da acumulação industrial e barateamento da reprodução da força de trabalho nas cidades constituía o fulcro do processo de expansão capitalista, que havia deixado de ser percebido pela teorização cepalino-furtadiana, em que pese seu elevado teor heurístico. Tive que entrar em forte discordância com as teorias do atraso na agricultura como fator impeditivo, com a do “inchaço” das cidades como marginalidade, com a da incompatibilidade da legislação do salário-mínimo com a acumulação de capital, o que não quer dizer que as considerasse fundamentos sólidos para a expansão capitalista; ao contrário, sua debilidade residia e reside ainda precisamente na má distribuição de renda que estrutura, que constituirá sério empecilho para a futura acumulação.

Daí derivou uma explicação para o papel do “exército de reserva” nas cidades, ocupado em atividades informais, que para a maior parte dos teóricos era apenas consumidor de excedente ou simplesmente lumpen, e para mim fazia parte também dos expedientes de rebaixamento do custo de reprodução da força de trabalho urbana. O caso da autoconstrução e dos mutirões passou a ser explicativo do paradoxo de que os pobres, incluindo necessariamente os operários, são proprietários de suas residências – se é que se pode chamar assim o horror das favelas – com o que reduzem o custo monetário de sua própria reprodução.5

Nada disso é uma adaptação darwinista às condições rurais e urbanas do processo da expansão capitalista no Brasil, nem “estratégias de sobrevivência”, para uma certa antropologia, mas basicamente as formas irresolutas da questão da terra e do estatuto da força de trabalho, a subordinação da nova classe social urbana, o proletariado, ao Estado, e o “transformismo” brasileiro, forma da modernização conservadora, ou de uma revolução produtiva sem revolução burguesa. Ao rejeitar o dualismo cepalino, acentuava-se que o específico da revolução produtiva sem revolução burguesa era o caráter “produtivo” do atraso como condômino da expansão capitalista. O subdesenvolvimento viria a ser, portanto, a forma da exceção permanente do sistema capitalista na sua periferia. Como disse Walter Benjamin, os oprimidos sabem do que se trata. O subdesenvolvimento finalmente é a exceção sobre os oprimidos: o mutirão é a autoconstrução como exceção da cidade, o trabalho informal como exceção da mercadoria, o patrimonialismo como exceção da concorrência entre os capitais, a coerção estatal como exceção da acumulação privada, keynesianismo avant la lettre. De resto, esta última característica também está presente nos “capitalismos tardios”6. O caráter internacional do subdesenvolvimento, na exceção, se reafirma com a coerção estatal, utilizada não apenas nos “capitalismos tardios” mas de forma reiterada e estruturante no pós-depressão de Trinta.

A singularidade do subdesenvolvimento poderia ser resolvida não-evolucionisticamente a partir de suas próprias contradições, à condição que a vontade das classes soubesse aproveitar a “riqueza da iniquidade” de ser periferia. A inserção na divisão internacional do trabalho capitalista, reiterado por cada ciclo de modernização, propiciaria os meios técnicos modernos, capazes de fazer “queimar etapas”, como os períodos Vargas e Kubistchek mostraram. O crescimento da organizãção dos trabalhadores poderia levar à liquidação da alta exploração propiciada pelo custo rebaixado da força de trabalho. A reforma agrária poderia liquidar tanto com a fonte fornecedora do “exército de reserva” das cidades, quanto com o poder patrimonialista. Mas faltou o outro lado, isto é, que o projeto emancipador fôsse compartilhado pela burguesia nacional, o que não se deu. Ao contrário, esta voltou as costas à aliança com as classes subordinadas, ela mesma já bastante enfraquecida pela invasão de seu reduto de poder de classe pela crescente internacionalização da propriedade industrial, sobretudo nos ramos novíssimos.7 O golpe de estado de 1964, contemporâneo dos outros na maioria dos paises latinoamericanos, derrotou a possibilidade aberta.

A longa ditadura militar de 1964 a 1984 prosseguiu, agora nitidamente, com a “via prussiana”: fortíssima repressão política, mão de ferro sobre os sindicatos, coerção estatal no mais alto grau, aumentando o grau de presença de empresas estatais numa proporção que nenhum nacionalista do período anterior havia sonhado, abertura ao capital estrangeiro, industrialização a marcha forçada – a expressão é de Antonio Barros de Castro – , e nenhum esforço para liquidar com o patrimonialismo nem resolver o agudo problema do financiamento interno da expansão do capital, que já havia se mostrado como o “calcanhar de Aquiles” da anterior configuração de forças. O endividamento externo apareceu então como a “solução” e por esse lado abriu as portas à financeirização da economia e das contas do Estado brasileiro, que ficou patente no último governo militar da ditadura, sob o mesmo czar das finanças que havia imperado no período do “milagre brasileiro” que, talvez por ter Antonio no nome fosse considerado milagreiro. Revelou-se um enorme farsante.

Sob o signo de Darwin: O Ornitorrinco

Como é o ornitorrinco? Altamente urbanizado, pouca força de trabalho e população no campo, dunque nenhum resíduo pré-capitalista; ao contrário, um forte agrobusiness. Um setor industrial da Segunda Revolução industrial completo, avançando, tatibitate, pela terceira revolução, a molecular-digital ou informática. Uma estrutura de serviços muito diversificada numa ponta, quando ligados aos estratos de altas rendas, a rigor, mais ostensivamente perdulário que sofisticado; noutra, extremamente primitivo, ligado exatamente ao consumo dos estratos pobres. Um sistema bancário ainda atrofiado, embora acapare uma alta parte do PIB – % -, quando se o compara internacionalmente. Em termos da PEA ocupada, fraca e declinante participação da PEA rural, força de trabalho industrial que chegou ao auge na década de setenta do século passado, mas decrescente também, e explosão continuada do emprego nos serviços. Mas esta é a descrição de um animal cuja “evolução” seguiu todos os passos da família! Como primata ele já é quase homo sapiens !

Parece dispôr de “consciência”, pois democratizou-se há já quase três décadas. Falta-lhe, ainda, produzir conhecimento, ciência e técnica: basicamente segue copiando, mas a decifração do genoma da xylella fastidiosa8 mostra que pode não estar muito longe de certos avanços fundamentais no campo da biogenética; espera-se apenas que não resolva autoclonar-se, perpetuando o ornitorrinco. Onde é que está falhando a “evolução” ? Na circulação sanguínea: a alta proporção da dívida externa sobre o PIB demonstra que sem o dinheiro externo, a economia não se move. É um adiantamento formidável: em 2001 o total da dívida externa sobre o PIB alcançou alarmantes 41% e o mero serviço dela, juros sobre o PIB, 9,1 % . Há poucas economias capitalistas assim; talvez os Estados Unidos acusem uma proporção tão grande, com uma diferença radical: o sangue, o dólar, que circula internacionalmente e volta ao USA é seu próprio sangue, já que é o país emissor. Desse ponto de vista, a “evolução” regrediu: não se trata mais do subdesenvolvimento, mas de algo parecido apenas com a situação pré-crise de 30, quando o serviço da dívida , vale dizer, o pagamento dos juros mais as amortizações do principal, comiam toda a receita de exportação !9 Mas há uma diferença fundamental: se no pré-30 as exportações de café eram toda a economia brasileira, agora trata-se de uma economia industrial, voltando-se, no entanto, à mesma situação de subordinação financeira.10 Essa dependência financeira externa cria, também, uma dívida financeira interna igualmente espantosa, como a política capaz de enxugar a liquidez interna produzida exatamente pelo ingresso de capitais especulativos. Mas é também um adiantamento sobre a produção futura, de modo que somando-se dívida interna e externa chega-se à conclusão de que para produzir um PIB anual é preciso endividar-se na mesma proporção. Esta é a reiteração da financeirização da economia.

No passado, no subdesenvolvimento, o “informal” poderia ser uma situação passageira, a transição para a formalização completa das relações salariais, o que chegou a mostrar-se nos últimos anos da década de setenta11; na minha própria interpretação, tratava-se de uma forma que combinava uma acumulação insuficiente com o privilegiamento da acumulação propriamente industrial. Em termos teóricos, tratava-se de uma forma aquém do valor, isto é, utilizava-se a própria mão-de-obra criada pelo movimento em direção às cidades – e não de uma reserva pré-capitalista – para prover de serviços as cidades que se industrializavam.

Avassalada pela terceira revolução industrial, ou molecular-digital, em combinação com o movimento da mundialização do capital, a produtividade do trabalho dá um salto mortal em direção à plenitude do trabalho abstrato. Em sua dupla constituição, as formas concretas e a “essência” abstrata, o consumo das forças de trabalho vivas encontrava obstáculos , a porosidade entre o tempo de trabalho total e o tempo de trabalho da produção. Todo o crescimento da produtividade do trabalho é a luta do capital para encurtar a distância entre essas duas grandezas. Teoricamente, trata-se de transformar todo o tempo de trabalho em trabalho não-pago; parece coisa de feitiçaria, e é o fetiche em sua máxima expressão. Aqui, quase se fundem mais-valia absoluta e relativa: absoluta porque o capital usa o trabalhador quando necessita dele, relativa porque isso é possível somente devido à enorme produtividade. A contradição: a jornada da mais-valia relativa deveria ser de diminuição do trabalho não-pago, mas é o seu contrário. Então, graças à produtividade do trabalho, desaparecem os tempos de não-trabalho: todo o tempo de trabalho é tempo de produção. Os serviços são o lugar da divisão social do trabalho onde essa ruptura já aparece com clareza. Cria-se uma espécie de “trabalho abstrato virtual”. As formas “exóticas” desse trabalho abstrato virtual estão ali onde o trabalho aparece como diversão, entretenimento, comunidade entre trabalhadores e consumidores: nos shoppings centers. Mas é na informação que reside o trabalho abstrato virtual. O trabalho mais pesado, mais primitivo, é também lugar do trabalho abstrato virtual. Sua forma, uma fantasmagoria, um não-lugar, um não-tempo, que é igual a tempo total. Pense-se em alguém em sua casa, acessando sua conta bancária pelo seu computador, fazendo o trabalho que antes cabia a um bancário: de que trabalho se trata ? Por isso, conceitos como formal e informal já não têm força explicativa. O subdesenvolvimento pareceria ser uma evolução às avessas: as classes dominantes, inseridas numa divisão do trabalho que opunha produtores de matérias-primas a produtores de bens de capital, optavam por uma forma da divisão de trabalho interna que preservasse a dominação: “consciência” e não acaso. Ficava aberta a porta da transformação.

Hoje, o ornitorrinco perdeu a capacidade de escolha, de “seleção”, e por isso é uma evolução truncada: como sugere a literatura da economia da tecnologia, o progresso técnico é incremental; tal literatura é evolucionista, neoschumpeteriana.12 Sendo incremental, ele depende fundamentalmente da acumulação científico-tecnológica anterior. Enquanto o progresso técnico da Segunda Revolução Industrial permitia saltar à frente, operando por rupturas sem prévia acumulação técnico-científica, por se tratar de conhecimento difuso e universal, o novo conhecimento técnico-científico está trancado nas patentes, e não está disponível nas prateleiras do supermercado das inovações. E ele é descartável, efêmero, como sugere Derrida, apud Laymert Garcia dos Santos.13 Essa combinação de descartabilidade, efemeridade e progresso incremental corta o passo às economias e sociedades que permanecem na rabeira do conhecimento técnico-científico. Assim, a decifração do genoma da xilella fastidiosa tem tudo para ser apenas um ornamento, a exibição orgulhosa da capacidade dos pesquisadores brasileiros, de um nicho muito especial, mas não a regra da produção do conhecimento.

A revolução molecular-digital anula a fronteira entre ciência e tecnologia: as duas são trabalhadas agora num mesmo processo, numa mesma unidade teórico-metodológica. Faz-se ciência fazendo tecnologia e vice-versa. Isto implica em que não há produtos tecnológicos disponíveis , à parte, que possam ser utilizados sem a ciência que os produziu. E o inverso: não se pode fazer conhecimento científico sem a tecnologia adequada: a fabricação das bombas atômica e de hidrogênio e as correspondentes produções de energia nuclear- a de fusão ainda não lograda completamente – já indicavam essa anulação, essa ultrapassagem. A revolução molecular-digital deleta – para usar um termo informático – definitivamente essa barreira. O que sobra como produtos tecnológicos são apenas bens de consumo.

Do ponto de vista da acumulação de capital, isto tem fundas consequências. A primeira e mais óbvia é que os países ou sistemas capitalistas subnacionais periféricos podem apenas copiar o descartável, mas não copiar a matriz da unidade técnico-científica. Uma espécie de eterna corrida contra o relógio. A segunda, menos óbvia, é que a acumulação que se realiza em termos de cópia do descartável, também entra em obsolescência acelerada, e nada sobra dela, ao contrário da acumulação baseada na Segunda Revolução Industrial. Isto exige um esforço de investimento sempre além do limite das forças internas de acumulação, o que reitera os mecanismos de dependência financeira externa. Mas o resultado fica sempre aquém do esforço: as taxas de acumulação, medidas pelo coeficiente da inversão sobre o PIB, são declinantes, e declinantes também as taxas de crescimento14. Em termos bastante utilizados pelos cepalinos, a relação produto-capital se deteriora: para obter cada vez menos produto, faz-se necessário cada vez mais capital.15 E a contradição se agudiza porque a mundialização introduz aumento da produtividade do trabalho sem acumulação de capital, justamente pelo caráter divisivel da forma técnica molecular-digital, do que resulta a permanência da má distribuição da renda: exemplificando mais uma vez, os vendedores de refrigerantes às portas dos estádios viram sua produtividade aumentada graças ao just in time dos fabricantes e distribuidores de bebidas, mas para realizar o valor de tais mercadorias, a forma do trabalho dos vendedores é a mais primitiva. Combinam-se, pois, acumulação molecular-digital com o puro uso da força de trabalho.

A superação da descartabilidade/efemeridade imporia um esforço descomunal de pesquisa científico-tecnológica, aumentando-se o coeficiente de P&D ou C&T sobre o PIB em algumas vezes, para saltar à frente da produção científico-tecnológica. Ainda segundo Carlos Fernandez da Silveira – o responsável pelo ornitorrinco – o coeficiente brasileiro para 1997 era de meros 1,5%. A acumulação de capital para realizar um salto dessas proporções significaria elevar muito o coeficiente de inversão sobre o PIB em período longo ,a partir da base atual, que era de quase 18% em 1999, e sobretudo mudar o mix da inversão, com maior proporção de C&D.16 Em alguns períodos da história, diversos subsistemas econômicos nacionais realizaram tal façanha, às custas de uma enorme repressão política, de uma economia de monge franciscano, com total irrelevância da produção de bens de consumo. Foi o caso japonês, por exemplo, que de tanto sua população acostumar-se a poupar, o Japão dispõe hoje de uma enorme poupança que não se transforma em investimento; mesmo o consumo de todos os gadgets eletrônicos – cuja produção já foi deslocada até para a China – não consegue gastar a renda dos nipões ; o segundo foi o caso da União Soviética, em que a produção de bens de consumo foi totalmente desprezada, gerando a incapacidade da agricultura soviética que, nos últimos anos do regime socialista , já significava fome. No caso soviético, a forma técnica da acumulação de capital da Segunda Revolução Industrial permitiu o extraordinário avanço ocorrido mas, por sua indivisibilidade, não permitiu sua utilização na produção de bens-salário: equipamento para siderurgia não produz pães.17 O paradoxo é que a acumulação de capital nas formas da Segunda Revolução Industrial podia avançar utilizando o conhecimento técnico-científico disponível, mas elas – as formas – eram indivisiveis; na revolução molecular-digital, as formas são divisíveis, mas o conhecimento técnico-científico é indivisível na unidade C & D.

Não parece ser o caso do Brasil, onde nos melhores anos kubistchekianos chegou-se aos 22% de investimento sobre o PIB; a ditadura militar, para elevar o coeficiente de investimento se financiou externamente gerando a enorme dívida , que se transformou em fator de coerção do crescimento e de subordinação financeira internacional. Como a acumulação incremental tem que realizar-se permanentemente, não havendo um day after quando já não se precisaria de altas taxas de investimento, não parece algo à mão para um país que acaba de criar um programa de Fome Zero pelas mui prosaicas e terríveis razões de uma distribuição de renda incomensuravelmente desigualitária.

Aterrizando na periferia, o efeito desse espantoso aumento da produtividade do trabalho, desse trabalho abstrato virtual, não pode ser menos que devastador. Aproveitando a enorme reserva criada pela própria industrialização, como “informal”, a acumulação molecular-digital não necessitou desfazer drasticamente as formas concreto-abstratas do trabalho, senão em seus reduzidos nichos fordistas. Realiza, então, o trabalho de extração de mais-valia sem nenhuma resistência, sem nenhuma das porosidades que entravavam a completa exploração.

A tendência à formalização das relações salariais estancou nos anos oitenta, e expandiu-se o que ainda é impropriamente chamado de trabalho informal. Entroncando com a chamada reestruturação produtiva, assiste-se ao que Castel chama a “desfiliação”, isto é, à desconstrução da relação salarial.18 Que se dá em todos os níveis e setores. Terceirização, precarização, flexibilização, desemprego às taxas de quase 30% na Grande São Paulo e 25% em Salvador, e não tão contraditoriamente como se pensa, ocupação – e não mais emprego –: grupos de jovens nos cruzamentos vendendo qualquer coisa e lavando-sujando vidros de carros, ambulantes por todos os lugares – os leitos das tradicionais e bancárias e banqueiras ruas Quinze e Bôa Vista em São Paulo transformaram-se em tapetes de quinquilharias -, o entorno do formoso e iluminadíssimo Teatro Municipal de São Paulo – não mais formoso que o Municipal do Rio, anote-se – exibe o teatro de uma sociedade derrotada, um bazar multiforme onde a cópia pobre do bem de consumo de alto nível é horrivelmente kitsch, milhares de vendedores de coca-cola, guaraná, cerveja, água mineral, nas portas dos estádios duas vezes por semana. Pasmemos teoricamente: trata-se de trabalho abstrato virtual. Políticas piedosas tentam “treinar” e “qualificar” essa mão-de-obra, num “trabalho de Sísifo”, jogando água em cesto, acreditando que o velho e bom trabalho com carteira voltará quando o ciclo de negócios se reativar.19. Será o contrário: quando se reativar, e isto ocorrerá de forma intermitente, sem sustentabilidade previsível, então em cada novo período de crescimento o trabalho abstrato virtual se instalará mais fundamente.

O ornitorrinco é uma das sociedades capitalistas mais desigualitárias, mais mesmo que as economias mais pobres da África que, a rigor, não podem ser tomadas como economias capitalistas, apesar de ter experimentado as taxas de crescimento mais expressivas em período longo20 – sou tentado a dizer com a elegância francesa, et pour cause . As determinações mais evidentes dessa contradição residem na combinação do estatuto rebaixado da força de trabalho com dependência externa. A primeira sustentou uma forma de acumulação que financiou a expansão, isto é, o subdesenvolvimento, conforme interpretado na Crítica à Razão Dualista, mas combinando-se com a segunda produziu um mercado interno apto apenas a consumir cópias, dando como resultado uma reiteração não-virtuosa.

Com a revolução molecular-digital como forma técnica principal da acumulação de capital, o fatiamento digital do mercado pode prosseguir sem que dê lugar a crises de realização, derivadas de uma super acumulação; estas ocorrem apenas quando a espantosa concentração de renda se desacelera; do ponto de vista do consumo popular, apesar das críticas bem intencionadas, não se chega a crises de realização: o fatiamento digital é capaz de descer aos infernos da má distribuição da renda. Crises de super acumulação podem ocorrer tão somente como problemas da concorrência oligopolística , como hoje com as telecomunicações, depois das grandes privatizações. Para ganhar o filet mignon das telecomunicações, as gigantes mundiais da telecomunicação lançaram-se a uma concorrência predatória, instalando sistemas de telefonia móvel e rebaixando o preço dos telefones celulares – e aumentando as importações – mas logo se depararam com o obstáculo da distribuição da renda das camadas mais pobres. Todas as formas dos produtos da revolução molecular-digital podem chegar até os estratos mais baixos de renda, como bens de consumo duráveis: as florestas de antenas, inclusive parabólicas, sobre os barracos das favelas é sua melhor ilustração. Falta dizer, ao modo frankfurtiano, que essa capacidade de levar o consumo até os setores mais pobres da sociedade, é ela mesma o mais poderoso narcótico social. Celso Furtado já havia advertido para isso, mas a meu ver pôs o acento na importação de padrões de consumo predatórios, ao invés de ver na distribuição de renda o motor determinante.21Seu último pequeno grande livro corrigiu para melhor sua advertência.22

A organização dos trabalhadores poderia operar a transformação da estrutura desigualitária da distribuição da renda, tal como ocorreu nos subsistemas nacionais europeus do Welfare State. A expansão das relações assalariadas seria o vetor por onde ganharia materialidade a organização, o que de fato ocorreu precariamente até os anos setenta. Já a crise do golpe militar de 1964 anunciava que as organizações de trabalhadores já não eram simples “correias de transmissão” da dominação chamada “populista” pela literatura sociológica-política.23 A eclosão dos grandes movimentos sindicais nos anos setenta, de que resultou , em grande medida, o Partido dos Trabalhadores, parecia indicar um caminho “europeu”24; medindo-se as proporções do salário e do lucro na renda nacional, a divisão funcional da renda, anotava-se uma melhoria na distribuição, e a vocação de universalizador das demandas do mundo do trabalho que passou a ser exercida pelos sindicatos “autênticos” – ABC, petroleiros, bancários – parecia ter tudo para expandir a relação salarial e seus correlatos, na Seguridade Social e nas formas do salário indireto. As empresas estatais adiantaram-se sob esse aspecto – importa não esquecer que os petroleiros eram uma categoria também de “funcionários públicos” inserida na produção de mercadorias – de que resultaram os grandes fundos de pensão.

Esse movimento deteve-se nos anos oitenta e entrou em franca regressão a partir dali. As forças do trabalho já não têm “força” social, erosionada pela reestruturação produtiva e pelo trabalho abstrato-virtual e “força” política, posto que dificilmente tais mudanças na base técnico-material da produção deixariam de repercutir na formação da classe. Embora na linha thompsoniana trabalhador não seja apenas um lugar na produção, inegavelmente há que concordar com Perry Anderson: sem esse lugar, ninguém é trabalhador, operário. A representação de classe perdeu sua base e o poder político a partir dela estiolou-se. Nas específicas condições brasileiras, tal perda tem um enorme significado: não está à vista a ruptura com a longa “via passiva” brasileira, mas já não é mais o subdesenvolvimento.

A estrutura de classes também foi truncada ou modificada: as capas mais altas do antigo proletariado converteram-se, em parte, no que Robert Reich chamou de “analistas simbólicos”25: são administradores de fundos de previdência complementar, oriundos das antigas empresas estatais , dos quais o mais poderoso é o Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, ainda estatal; fazem parte de conselhos de administração, como o do BNDES, a título de representantes dos trabalhadores. A última floração do Welfare brasileiro, que se organizou basicamente nas estatais, produziu tais fundos, e a Constituição de 1988 instituiu o FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador que é o maior financiador de capital de longo prazo no país, justamente operando no BNDES.26 Tal simulacro produziu o que Robert Kurz chamou de “sujeitos monetários”27: trabalhadores que ascendem a essas funções28 estão preocupados com a rentabilidade de tais fundos, que ao mesmo tempo financiam a reestruturação produtiva que produz desemprego. Sindicatos de trabalhadores do setor privado também já estão organizando seus próprios fundos de previdência complementar, na esteira daqueles das estatais. Ironicamente, foi assim que a Força Sindical conquistou o sindicato da então Siderúrgica Nacional, que era ligado à CUT, formando um “clube de investimento” para financiar a privatização da empresa; ninguém perguntou depois o que aconteceu com as ações dos trabalhadores, que ou viraram pó ou foram açambarcadas pelo grupo Vicunha, que controla a Siderúrgica. É isso que explica recentes convergências pragmáticas entre o PT e o PSDB, o aparente paradoxo de que o governo de Lula realiza o programa de FHC, radicalizando-o: não se trata de equívoco, mas de uma verdadeira nova classe social, que se estrutura sobre , de um lado, técnicos e intelectuais doublés de banqueiros, núcleo duro do PSDB , e operários transformados em operadores de fundos de previdência, núcleo duro do PT29. A identidade dos dois casos reside no contrôle do acesso aos fundos públicos, no conhecimento do “mapa da mina”30.

A questão da formação dessa nova classe no capitalismo globalizado na periferia – embora Reich teorize principalmente sobre os fenômenos no centro dinâmico do sistema – deve ser mais perscrutada. De fato, tanto há um novo lugar da nova classe no sistema, sobretudo no sistema financeiro e suas mediações estatais, o que satisfaz um critério de classe de extração marxista, quanto há uma nova “experiência” de classe, nos termos de Thompson: o caso da comemoração do aniversário de ex-tesoureiro da CUT mostra que essa “experiência” lhe é exclusiva, e não pode ser estendida aos trabalhadores em geral; de fato já não são mais trabalhadores. Seria os novos pubs , lugar de frequentação da nova classe. Se nessa frequentação ela se mistura com as burguesias e seus executivos, isto não deve levar a confundí-los: seu “lugar na produção” é o contrôle do acesso ao fundo público, que não é o “lugar” da burguesia. Em termos gramscianos também a nova classe satisfaz as exigências teóricas: ela se forma exatamente num novo consenso sobre Estado e mercado, e por último, é a luta de classes que faz a classe: vale dizer, seu movimento se dá na apropriação de parcelas importantes do fundo público, e sua especificidade se marca exatamente aqui: não se trata de apropriar os lucros do setor privado, mas o lugar onde se forma parte desse lucro, vale dizer o fundo público. Uma démarche de inspiração weberiana veria a nova classe como se formando numa “ação com sentido racional”, que é , em última análise, a forma de sua consciência.31

Olhando de outro ângulo, o ornitorrinco apresenta a peculiariedade de que os principais fundos de inversão e investimento são propriedades de trabalhadores. É o socialismo, exclamaria alguém que ressuscitasse das primeiras décadas do século XX. Mas ao contrário das esperanças de Juarez Guimarães, o ornitorrinco está privado do momento ético-político32, pela combinação da permanente aceleração da estrutura material de produção e “propriedade” dos fundos de acumulação. A hegemonia, na fórmula gramsciana, elabora-se na superestrutura, e nas suas específicas condições, o ornitorrinco não tem “consciência”, mas apenas replicação superestrutural: seu teórico antecipatório foi Ridley Scott, com Blade Runner.

O ornitorrinco é isso: não há possibilidade de permanecer como subdesenvolvido, e aproveitar as brechas que a Segunda Revolução Industrial propiciava; não há possibilidade de avançar, no sentido da acumulação digital-molecular: as bases internas da acumulação são insuficientes, estão aquém das necessidades para uma ruptura desse porte. Restam apenas as “acumulações primitivas”, tal como as privatizações propiciaram: mas agora com o domínio do capital financeiro, elas são apenas transferências de patrimônio, não são , propriamente falando, “acumulação”. O ornitorrinco está condenado a submeter tudo à voragem da financeirização, uma espécie de “buraco negro”: agora será a previdência social, mas isso o privará exatamente de redistribuir a renda e criar um novo mercado que sentaria as bases para a acumulação digital-molecular. O ornitorrinco capitalista é uma acumulação truncada e uma sociedade desigualitária sem remissão. Vivam Marx e Darwin: a periferia capitalista finalmente os uniu. Marx que esperava tanto a aprovação de Darwin, que não teve tempo para lêr O Capital. Não foi aqui , nas Galápagos, que Darwin teve o seu “estalo de Vieira” ?

Faça o Download do Texto

Notas Bibliográficas

1 Ver Luis Jorge Werneck Vianna . A Revolução Passiva. Rio de Janeiro, Revan, 1997. Carlos Nelson Coutinho entende que Caio Prado Jr. já havia construído uma espécie de via específica para o capitalismo, que seria, afinal, o subdesenvolvimento, mas os desdobramentos posteriores do próprio Caio o fizeram ancorar numa teoria do colonialismo.. Ver, de Carlos Nelson, “ Uma via não-clássica para o capitalismo” in Maria da Conceição D’Incao, (org.) História e Ideal. Ensaios sobre Caio Prado Jr. São Paulo, Unesp/Brasiliense, 1989

2 De Furtado, o clássico Formação Econômica do Brasil 25ªed. São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1995, de Raúl Prebisch, o não menos famoso – na verdade seminal – relatório da Cepal, El desarrollo económico de la América Latina y algunos de sus principales problemas.In Adolfo Gurrieri, La obra de Prebisch en la Cepal. México, Fondo de Cultura Económica, 1982.

3 Angus Madison, Monitoring the World Economy. 1820-1992, OECD, Paris. 1995

4 Ver Francisco Sá Jr. “O desenvolvimento da agricultura nordestina e a função das atividades de subsistência”, in Estudos Cebrap n. 3, jan 1973, São Paulo, Editora Brasileira de Ciências,1973

5 Aqui, o acaso também ajudou: ensinava Sociologia na nóvel Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos, junto com Sergio Ferro, rigor formal e paixão, e o inesquecível Rodrigo Lefèvre, o dançarino das Sandálias de Prata que a madrasta levou , e eles realizavam junto com outros professores , uma pesquisa sobre habitação. Ali constatava-se que a grande maioria dos favelados era proprietária de seus barracos: a incógnita foi resolvida com a revelação de que a construção da “propriedade” era feita em mutirões, tal como imemorialmente se fazia no campo. Aí, me caiu a ficha.

6 Ver José Luis Fiori (org.) Estados e Moedas no Desenvolvimento das Nações. Coleção Zero à Esquerda . Petrópolis, Ed. Vozes, 1999, especialmente a segunda parte “ ‘Os Capitalismos Tardios’ E Sua Projeção Global.”

7 Deste ponto de vista, o livro de Fernando Henrique Cardoso, Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico, São Paulo, Difel, 1964 , reconhecia que a burguesia industrial nacional preferia a aliança com o capital internacional. Trata-se talvez do que de melhor o ex-sociólogo , hoje ex-presidente e eterno candidato ao Planalto, produziu academicamente. Roberto Schwarz sustenta a tese de que Cardoso na presidência implementou exatamente suas conclusões neste livro, já que a burguesia nacional já havia renunciado a um projeto nacional; ele enveredou decididamente para integrar o país na globalização.

8 Mariluce Moura, “ O novo produto brasileiro”. Pesquisa n 55, Julho de 2000. Fapesp.S.Paulo,2000

9 Ver Anibal Vilanova Vilella e Wilzon Suzigan, Crescimento da Economia e Política Econômica 1889-1930.Ipea, Rio; no meu artigo “A Emergência do Modo de Produção de Mercadorias: uma interpretação teórica da economia da República Velha no Brasil”, dei relevo à pesquisa de Vilella e Suzigan, para definir o caráter violentíssimo da crise. In Boris Fausto, História da Civlização Brasileira. O Brasil Republicano. III. Cap. VII. São Paulo, Difel,1974

10 Nestes dias, do último trimestre de 2002 até março de 2003, os empréstimos externos que financiam as exportações brasileiras secaram, devido à conjunção de uma série de fatores políticos e econômicos, e o dólar deu uma disparada indo até a estratosfera, com uma desvalorização do real da ordem 30%. Passada a turbulência política, voltaram os financiamentos externos e o dólar despencou na mesma proporção. A dependência financeira é dramática e praticamente irreversível, e de uma volatilidade espantosa..

11 Ver Elson Luciano SilvaPires, Metamorfoses e Regulação: O Mercado de Trabalho do Brasil nos Anos Oitenta. Tese de doutoramento. Departamento de Sociologia, FFLCH-USP, São Paulo, 1995

12 Ver para essa interessantissima discussão, a tese de Carlos Eduardo Fernandez da Silva, o Caico, Desenvolvimento tecnológico no Brasil: Autonomia e dependência num país industrializado periférico. Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2001.

 

13 Laymert Garcia dos Santos, “Biotecnologia, biodiversidade: passagem para o molecular global”. Relatório de pesquisa subprojeto 9. Projeto temático Fapesp “Cidadania e Democracia: as rupturas no pensamento da política”. São Paulo. Cenedic, FFLCH-USP, 2002

14 Perry Anderson trabalha essa contradição, para mostrar como apesar de todas as “reformas” neoliberais, as taxas de investimento e de crescimento do PIB jamais recuperaram o vigor do período 1950-1970 nos países centrais. Ver. ”Balanço do Neoliberalismo” in Emir Sader (org.) Pós-Neoliberalismo – As políticas Sociais e o Estado Democrático. São Paulo/Rio, Paz e Terra, 1995

15 Nos dias de hoje, está em discussão a possibilidade do Brasil produzir sua própria televisão digital, ou copiar o que está disponível internacionalmente. Uma terceira opção, variante da primeira, seria entrar num consórcio científico-tecnológico com a China. A posição do Ministro da Fazenda, o hoje controvertido Antonio Palocci, é de que não vale a pena, pois exigiria bilhões de reais de investimento para um retorno precário, dadas as reduzidas dimensões do mercado brasileiro, e o fato de que, no sistema de patentes e sob a vigilância da Organização Mundial do Comércio, pensar em exportação da televisão digital brasileira é uma quimera, perigosa para o hoje ministro Palocci. Tal dilema já havia aparecido no caso da televisão a cores, que foi resolvida mediante a adoção dos padrões Palm-M e o NSPC, isto é, cópias descartáveis. Não houve esforço científico-tecnológico nacional para criar um padrão original, mas apenas adaptação .

 

16 Dados extraídos de Revista BNDES, Rio de Janeiro, vol.8, no. 15, jun 2001

17 Na discussão teórica dos anos cinquenta, o “modelo” adotado pela então União Soviética parecia lhe dar vantagem, como teorizou Nicholas Kaldor, pois os bens de capital puxavam a economia; mas não se prestou a devida atenção teórica às indivisibilidades das formas técnicas da Segunda Revolução Industrial, que finalmente constituiu-se no gargalo da experiência soviética. Na equação keynesiana, P = C + S ou I, e no caso soviético o modelo das indústrias pesadas não tinha como não penalizar o consumo, embora produzisse um crescimento global espantoso na época dos Planos Quinquenais..

18 Robert Castel, As Metamorfoses da Questão Social: Uma Crônica do Salário. Coleção Zero à Esquerda. Petrópolis, Vozes, 1998.

19 Em todos os cursos dessas “requalificações”, treinam-se trabalhadores em informática, o “ai Jesus” do novo trabalhador polivalente: não há nada tão trágico, pois ensina-se a própria matriz da descartabilidade.

20 Ver Angus Madison, op. cit.

21 Ver Celso Furtado, Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966 e Análise do “Modelo” Brasileiro. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1972..

22 Celso Furtado. Em busca de novo modelo – reflexões sobre a crise contemporânea. São Paulo, Paz e Terra, 2002.

23 Já está se impondo a revisão dessa literatura, que tomou o populismo como formas quase-fascistas na América Latina. Ver Alexandre Fortes, “Trabalhismo e Populismo: Novos Contornos de um Velho Debate”. Inédito; Jorge Ferreira (org.) O populismo e sua história. Debate e Crítica. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001

24 Havia ali uma contradição: o movimento sindicalista que foi chamado “autêntico” – por oposição aos pelêgos saídos das intervenções da ditadura nos grandes sindicatos, caso clássico dos Metalúrgicos de São Paulo – praticavam um sindicalismo à americana, com negociações que se centravam nas empresas e depois se espraiavam , justamente porque eram empregados das grandes multinacionais, sobretudo no setor automotivo que sempre liderou São Bernardo. A ditadura e a crise do “milagre brasileiro”, com a crise da dívida externa e a incapacidade das montadoras jogarem os reajustes de preços dos automóveis para a dívida externa, levou o sindicalismo com vocação americana para mais perto do modelo europeu.

25 Ver Robert Reich, The Work of Nations, New York, Vintage Books, 1992.

26 Em 1998/99, a média dos recursos do FAT no passivo total do BNDES foi de 37% e ao longo da década, elevou-se de 2% em 1989 para 40% em 1999, mostrando a dependência do banco estatal de desenvolvimento dos recursos de propriedade dos trabalhadores com carteira.Fonte: Relatório de Atividades do BNDES de 1994 a 1999. Por sua vez, a participação dos desembolsos do BNDES na Formação Bruta de Capital Fixo, vale dizer na inversão total, flutuou entre 3,25% em 1990 para 6,26% em 1998 e 5,93 % em 1999..Fontes: Revista BNDES, Rio de Janeiro, Vol. 8,. N. 15, Jun 2001

27 Robert Kurz, Os Últimos Combates. Coleção Zero à Esquerda, Petrópolis, Vozes, 1999

28 Ficou notável na safra pós-eleições presidenciais de 2002, o aniversário do senhor Delúbio Soares, tesoureiro da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva e antigo tesoureiro da CUT: a imprensa contou entre 15 e 18 jatinhos e outras pequenas aeronaves, que aterrisaram na fazenda em que Delúbio festejava seu aniversário. Não se sabia que trabalhadores possuem aviões e tantos…

29 O Conselho da FRB-Par, holding que controla a Varig, ofereceu três assentos a petistas no referido conselho, entre eles Gilmar Carneiro que, por acaso, é membro do Conselho de Administração do BNDES, banco estatal que financiará a reestruturação do setor de aviação civil, do qual a Varig é a principal – e muito falida – empresa. Kurz, uma vez mais, tem razão. Está na hora de reler Milovan Djilas, A Nova Classe, em que ele pensa a partir exatamente do contrôle do aparato produtivo estatal pela burocracia dos regimes soi disant socialistas do Leste europeu: tal contrôle conferia estatuto de classe, posto que combinava o poder econômico com o poder político no partido único.

30 No caso extremo da Rússia pós-soviética, esse conhecimento transformou-se em verdadeira pirataria, mas os casos argentino e brasileiro diferem apenas em grau. Os economistas de FHC transformados em banqueiros são hoje, legião.. A privatização na Argentina sob Carlos Saúl Menem parece saída das histórias do gangsterismo de Chicago. Será que o fato desta cidade norteamericana sediar a escola de economia mais ortodoxa tem algo a ver ? O relato de Horacio Vebitsky a respeito é devastador, a começar pelo título de seu livro, Robo para la Corona: los fructos prohibidos del árbol de la corrupción. Buenos aires, Planeta Bolsillo, 1996.

31 A literatura que referencia essas indicações é bastante conhecida: Karl Marx, Perry Anderson, Edward J. Thompson, Antonio Gramsci, Max Weber . Trabalhei essa questão em “Medusa ou as Classes Médias e a Consolidação Democrática”, in Guillermo O’Donnell e Fábio W. Reis (orgs.) A Democracia no Brasil: dilemas e perspectivas. São Paulo, Vértice, 1988, onde as considerava parte importante das classes médias em sua função de experts da medida. Creio que esse insight se aparenta com o de “analistas simbólicos” do Reich, mas hoje acrescento à função ou lugar da classe como agente da medida, o contrôle do acesso ao fundo público. Já relembrei linhas acima Milovan Djilas, mas creio sua “nova classe” se diferenciava pela combinação de contrôle do aparato produtivo com partido único, o que não é o caso dessa “medusa” periférica..

32 Juarez Guimarães identificou uma crise do neoliberalismo no Brasil, no seu “A crise do paradigma neoliberal e o enigma de 2002”, São Paulo em Perspectiva, n. 15, vol. 4, São Paulo, Fundação Seade, 2001, que lhe serviu para interpretar a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva como um momento ético-político republicano de refundação da sociedade, uma espécie de antípoda do “momento maquiaveliano”. Tal interpretação se deu em seminário na Fundação Getúlio Vargas em 9/12/2002, no II Seminário Internacional sobre Democracia Participativa, promovido pela Prefeitura Municipal de São Paulo. ..

Deivison Nkosi

Professor e pesquisador. Integrante do Grupo KILOMBAGEM

You may also like...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>