O samba continua sendo uma arma de resistência e luta em Mauá

Avante mocidade pega o lenço e vai a luta. - Trechodo samba Cenário Original de Rafael Loré

 

É muito difícil falar do Projeto Samba de Terreiro de Mauá e do Bloco de Samba “Pega o Lenço e Vai” em poucas linhas pois, cada detalhe da história desses projetos é muito importante e deve ser registrado, não pode cair no esquecimento; tentarei sintetizar essa história sem reduzir sua grandiosidade.

O Projeto Samba de Terreiro de Mauá, é um coletivo de trabalhadores(as) que desde de 23 de dezembro de 2002 decidiram se organizar para pesquisar e difundir os sambas de outrora. Esses trabalhadores(as) se preocupavam com a possibilidade do esquecimento desse formato de samba: cuidadoso com a melodia e harmonia dos sambas, com os músicos tocando e cantando no formato de roda para que todos participassem e a importância das mulheres na roda que são chamadas de pastoras, termo que vem dos ranchos carnavalescos, anteriores as escolas de samba – década de 1880, o sambista apresentava sua composição para as pastoras, se elas cantassem bem o samba, este estava aprovado.

Esse resgate mostra a função social que o samba tem em sua essência, mostra que ele não é somente entretenimento, ele é também resistência, pois, a repressão policial nas periferias que hoje denominamos como genocídio da população negra, também era pesada naquele período, havia proibição e os sambistas para escapar dessa repressão foram para os terreiros de candomblé fazer as rodas de samba; eram locais seguros, a repressão aos terreiros era menor no período, assim surgem as escolas de samba do Rio de Janeiro misturadas com as religiões de matriz africana pois, em um primeiro momento se organizaram nos terreiros, sempre resistindo; esses sambistas colocaram em suas letras seu duro cotidiano de uma forma rica em poesia, melodia e harmonia.

O resgate da história do samba feito por esses trabalhadores(as) é transformador, o Samba de Terreiro de Mauá é uma escola pública de verdade, pesquisam por amor não cobram pela socialização que fazem de suas pesquisas e cada vez mais agregam pessoas, de toda parte do país, fortalecendo a luta para que a essência do samba não se perca totalmente.
Quem assiste um desfile de escola de samba do Rio de Janeiro hoje, não faz ideia que a origem dessas escolas teve a função social de organizar trabalhadores(as) que queriam produzir sua arte e não podiam, que lutaram muito para conseguir; hoje o luxo das escolas de samba permite a participação da população das periferias quase sempre apenas nos seus barracões, produzindo as fantasias que não tem dinheiro para comprar e construindo os luxuosos carros alegóricos onde sobe quem pagar mais. O capitalismo cumpriu seu papel nas escolas de samba, tirou sua essência de luta e resistência e a transformou em: O Maior Espetáculo da Terra, onde quem produz o espetáculo geralmente não tem acesso.

Ao reconhecer a transformação do carnaval oficial, o coletivo manifesta sua inquietação com a formação de um bloco de samba no formato tradicional, que saia para a rua um sábado antes do carnaval oficial e que a batucada remetesse ao ritmo de outrora, privilegiando a melodia e pegando as três fases do carnaval brasileiro: a primeira fase se inicia nos anos 1920, onde o samba era de improviso, tinha somente a primeira parte que era curta e os sambistas faziam versos de improviso em cima dela; a segunda fase era o samba completo, tinha primeira e segunda parte com temas livres; e a terceira fase, que é a do samba enredo, foi na década de 1940, período que as escolas começaram fazer samba com temas históricos. O bloco sai com cinco sambas que são composições de vários(as) parceiros(as): o samba tema, que conta a história da luta ou do(a) protagonista da luta homenageado(a) no ano, um de improviso e os outros com primeira e segunda parte e com temas livres, instrumentos de sopro junto com a batucada, e sem a obrigatoriedade de se fantasiar, tendo somente o lenço no pescoço que é o símbolo do Bloco Pega o Lenço e Vai. A idealização do bloco está ligada também a preocupação com o cumprimento da lei 10.639/03 que foi incluída na LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional –, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de História Africana e da Cultura Afro-brasileira nas escolas públicas municipais, estaduais e particulares. A lei foi uma conquista necessária mas, infelizmente é negligenciada até nas universidades que também nega as lutas e as contribuições do negro em nosso país. O Bloco foi formado em 2010, teve e tem apoio de muitos companheiros[as] daqui de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Porto Alegre, de Florianópolis, Minas Gerais e do Paraná que abraçaram esse projeto com muito amor e alegria. O bloco saiu para a rua em 2011 e o primeiro a ser lembrado foi João Cândido – O Almirante Negro –, líder da Revolta da Chibata que em 2010 comemorou seu centenário. O símbolo do bloco se deu por conta de perceberem que nas fotos de João Cândido e de seus companheiros de revolta sempre tinham um lenço no pescoço, pois, na marinha antiga os marinheiros usavam um lenço na cabeça amarrado na testa quando estavam em combate, pois ele servia como proteção dos olhos para não cair pólvora ou graxa; quando não estavam em combate giravam o lenço escorregando da testa para o pescoço, tornando-se parte da vestimenta; por esta razão foi decidido utilizar o lenço como símbolo de manifestação da revolta, e então, em meio à discussão sobre qual seria o nome do bloco, Ocimar, um dos integrantes do bloco e também do Projeto Samba de Terreiro de Mauá, fez uma fala mais ou menos assim: Mas o lenço não será o símbolo do bloco? Então pega o lenço e vai…, o que fez o próprio Ocimar e os demais integrantes do bloco lembrarem de um samba da Velha Guarda da Portela que o coletivo gosta muito, que é o samba do Alcides Malandro Histórico da Portela e do Monarco.

Todos os temas do bloco foram escolhidos por Danilo Ramos Silva, um dos idealizadores do bloco e curador do Centro Cultural Dona Leonor, um espaço de luta da cidade de Mauá que ele junto com sua irmã Daniela e seu irmão Daniel organizam e disponibilizam para diversas atividades. Além do Projeto Samba de Terreiro Mauá e do Bloco Pega o Lenço e Vai, Danilo tem a preocupação de que todas as atividades realizadas no CCDL sejam voltadas para formação e sempre com a perspectiva da emancipação humana: grupo de estudo, lançamento de livros e revistas, oficinas, saraus e cursos; a concentração, a saída do bloco e as formações sobre os temas são feitas nesse espaço, ele convida professores e militantes para falar sobre o tema e a partir daí os compositores começam a pensar na construção do samba tema. No primeiro ano a formação sobre João Cândido – Almirante Negro –, foi feita pelo professor e parceiro do bloco Weber Lopes; no segundo ano sobre Luiza Mahin – A Revolta dos Males –, a formação foi feita por Honerê Al-Amim Oadq, integrante da Posse Haussa, de Diadema; no terceiro sobre Luiz Gama – O Trovador da Liberdade –, o professor e parceiro Felipe Choco, integrante do Fórum de Hip-Hop de São Bernardo do Campo; no quarto sobre a Conjuração Baiana – Revolta dos Búzios –, o professor Weber Lopes; no quinto ano sobre A Revolta dos Balaios, o professor e integrante do Coletivo de Esquerda Força Ativa da Cidade Tiradentes Djalma Lopes – Nando Comunista; e esse ano sobre O Quilombo dos Palmares, novamente, o professor Weber Lopes. Essas formações são fundamentais para a organização do bloco, é o pontapé inicial para a construção do samba tema e início dos ensaios pois, infelizmente a maioria dos trabalhadores(as) não viram esses temas na escola, por isso o cuidado e atenção para que a Lei 10.639/03 seja devidamente cumprida. O Centro Cultural Dona Leonor é um quilombo urbano, isto é, um espaço de resistência e luta fundamental para os as trabalhadores(as). É grande a alegria de fazer parte desta história, e essas palavras são expressão de minha gratidão pelo amor que recebo de cada uma dessas pessoas, amor que me faz acreditar cada vez mais na possibilidade de uma outra sociedade pois, o vínculo afetivo que construímos é real.

O Centro Cultural Dona Leonor fica na rua San Juan, 121 – Parque das Américas – Mauá

O cortejo do Bloco Pega o Lenço e Vai será dia 30 de janeiro de 2016, das 14:00 às 22:00 horas.

Todos as estão convidados (as)

Confira um pouquinho sobre o Bloco Pega o Lenço e Vai

AVANTE MOCIDADE PEGA O LENÇO E VAI A LUTA trecho do samba Cenário Original de Rafael Loré

 

Hosana Meira da Silva

Integrante do Samba de Terreiro de Mauá, do bloco Pega o Lenço e Vai e do coletivo Kilombagem.

kilombagem

A missão do Grupo Kilombagem é a apropriação, produção e difusão de conhecimento a cerca da humanidade e suas principais contradições sociais.

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