Phil Anselmo: O ícone do Metal e a Alienação Coletiva

Por William Mumu Silva

Phil Anselmo - Pantera, advoga a supremacia branca

Phil Anselmo advogando a supremacia branca – CLICK NA IMAGEM PARA ASSISTIR O VÍDEO

“White Power”! Bradou orgulhoso e de peito estufado enquanto fazia a saudação nazista, um dos ícones do metal mundial, o ex-vocalista do Pantera, Phil Anselmo. Sua atitude racista talvez se transforme em mais um “arrependido” pedido de desculpas feitos por um descontrolado beberrão que os headbangers[1] tanto adoram.

Abro meu computador e vejo todo tipo de mensagem saltando na tela, umas em repúdio, outras em apoio a Phil Anselmo, que se tornou o trending topics[2] mundial como o mais novo famoso racista do momento.

Nos dias de hoje ser racista explícito não chega a ser um problema tão grave, principalmente se você for famoso. Os caminhos tortuosos da intolerância e o desejo de supremacia racial tomam corpo massivo nas ruas americanas e pasmem, nas brasileiras também.

Nos EUA, terra de Phil Anselmo e da “Lei de Lynch”[3], muitos dirão que não é mesmo um problema a prática do extremismo racial. Por lá temos Donald Trump concorrendo à presidência da república e a volta das atividades midiáticas da Ku Klux Klan, entre outras coisas.

No Brasil temos as bancadas evangélicas na câmara, Luciano Huck na TV e ex-militares como o deputado Bolsonaro, cumprindo o papel de fascistas tupiniquins. Por aqui o crime de racismo se quer existe, é injuria racial, o que sabemos não ser exatamente a mesma coisa, mas não entrarei nessa seara.

Muitas pessoas não enxergam violência em um fato como esse executado pelo músico, então partindo desse ponto, posso dizer que, minimamente, esse tipo de ação gera desconforto, mas lidar com o desconforto parece ser tarefa exclusiva para quem sofre a ação de injúria e violência, por isso não há tanta preocupação na tratativa da causa raiz do problema.

Scott Ian do Anthrax, que é judeu, disse em suas redes sociais: “Tudo isto é perigoso, não importa qual o contexto. Tenho tolerância zero para tudo isto e não protestar contra é tão perigoso quanto o ato em si”. Deveríamos mesmo ter tolerância zero, mas na cena metal, não é bem assim. Os headbangers foram se tornando conservadores ao longo dos anos e os casos de racismo são cada vez mais frequentes e explícitos, a intolerância é cada vez mais alta.

Pantera à frente da Bandeira dos Confederados, símbolo da supremacia branca nos E.U.A.

Pantera à frente da Bandeira dos Confederados, símbolo da supremacia branca nos E.U.A.

A Bandeira dos Estados Confederados da América virou adereço da nova moda Rock and Roll. As bandas, que obviamente entendem o real significado desse símbolo, espalham sua mensagem livremente pelo mundo, já os fãs, repetem discursos de ódio racial travestidos de símbolos de uma ideologia rebelde. Devemos aplaudir tamanha perspicácia na construção de um ecossistema tão bem elaborado e eficaz.

Phil Anselmo vendo o tamanho do barulho gerado, pediu desculpas, mesmo sabendo que não teria grandes problemas a longo prazo, mas como um garoto mimado, colocou a culpa na bebedeira regada a “vinho branco racista”. Esse tipo de atitude mesquinha valida nessa sociedade atual o fato assombroso de que se estivermos supostamente bêbados podemos praticar qualquer ação violenta ou de injuria racial, bastando depois se desculpar na internet por beber um pouquinho demais.

Não podemos mais a apologia à supremacia racial com rebeldia, discursos de ódio com gritos de liberdade. Se continuamos fazendo isso, passo a acreditar que estamos vivendo um período de Alienação Coletiva no rock.

Rob Flynn, vocalista do Machine Head, fez um vídeo sobre o caso e nele acusa Phil Anselmo de racista baseado em seu relato pessoal dos fatos ocorridos nos bastidores do show. Por ser caucasiano e não ter vínculo emocional com o nazismo, como é o caso de Scott Ian, acho louvável a coragem e o posicionamento do vocalista, apesar de também achar uma atitude deveras oportunista de marketing espontâneo.

Analisando a naturalidade com que Phill Anselmo usa a saudação nazista, me dá a entender que isso é algo comum em seu cotidiano nos bastidores entre amigos, nesse caso, seria essa a primeira vez que Flynn ouvia essa “piada”? Seria essa a primeira repreenda que ele daria em Phil Anselmo? Não tenho motivação em tentar demonizar a crítica feita por Flynn, respeito todos que se posicionam firmemente, seja lá por qual motivação, contra atos racistas, porém, a alienação coletiva não é extirpada em um único e isolado posicionamento perante a fatos constantes e repetidos, somente mudança nas atitudes diárias podem tratar os sintomas dessa doença. A questão é saber se quem oprime se reconhece como racista, e se está disposto a se tratar verdadeiramente.

Down

Créditos William Mumu Silva!

Acredito que ninguém é obrigado a apoiar uma causa específica, mas o mínimo do bom senso e respeito são requeridos na convivência em sociedade, omissão também é crime, não cível, mas moral. Nessa linha de pensamento Sebastian Bach, ex-vocalista do Skid Row, em seu Twitter demonstra um pouco de sanidade: “O rock deveria ser diversão. Perverter a música em ódio? Não é divertido. Pessoas que dizem “white power” são idiotas. Assim como aqueles que concordam. Ou que ficam em silencio”.

O Silêncio e a mentira são convenções que afirmam privilégios sociais e são as formas mais discretas para se tornar um racista ativo de boa índole na sociedade. Atitudes como a de Phil Anselmo permeiam o inconsciente coletivo e calcificam o pensamento racista que posteriormente tendem a transbordar nas ruas em forma de atitudes intolerantes e violentas.

Como alguns podem pensar, isso não tem nada a ver com a costumeira má interpretação do termo “politicamente correto”, mas sim com uma sociedade doente sofrendo de alienação coletiva muitas vezes promovida por pessoas com grande alcance midiático em seu país, ou em seu nicho de convivência social.

https://www.youtube.com/watch?v=rVaUlXfvOHg

O psiquiatra e filósofo, Frantz Fanon, em “Racismo e Cultura” nos ajuda a entender que a alienação é um fato real. Para ele a alienação não se limita a nossa subjetividade, é algo concreto em nossas relações reais em todos os ambientes de convivência, neste caso a tribo do Rock e Metal.

Apresentação do DOWN - Carioca Club, 2013 - William Mumu Silva!

Apresentação do DOWN – Carioca Club, 2013 – William Mumu Silva!

Fanon também diz:

O racismo, não é mais do que um elemento de um conjunto mais vasto: a opressão sistematizada de um povo. O exotismo é uma das formas desta simplificação. Partindo daí nenhuma confrontação cultural pode existir. Por um lado, há uma cultura à qual se reconhecem qualidades de dinamismo, de desenvolvimento, de profundidade. Uma cultura em movimento, em perpétua renovação. Frente a esta, encontram-se características, curiosidades, coisas, nunca uma estrutura.

A fala de Frantz Fanon neste caso dialoga com o fato de que apesar da indignação por parte de outros músicos da cena rock e metal, não há confrontação cultural efetiva, pois tal atitude, mesmo para aqueles que se opõem a saudação nazista, batem de frente com suas supostas conquistas e privilégios históricos e sociais. Não basta romper em discurso único contra atitudes racistas, pois se no cotidiano não houver a prática de respeito e igualdade sócio cultural, não haverá mudanças estruturais na sociedade, sendo assim, a benevolência e aceitação de pedidos de desculpas em casos como esse, tendem a continuar se multiplicando.

Fiz muitos bons amigos na cena rock e metal, aprendi a andar nas ruas e a viver como um gladiador urbano sem pudores ou amarras por conta do Heavy Metal. Extravasei ódio, amor e tristeza na distorção das guitarras, no rufar de bumbos duplos e nos guturais animalescos de músicos cheios de postura e atitude. Estive sempre ao lado de boas pessoas que respeitavam e ainda respeitam nossas diferenças raciais e culturais, entendendo que enxergamos o mundo a partir de pontos de origem diferente, ainda hoje não espero menos de qualquer amigo Headbanger.

Como Headbanger Negro, redator e fotógrafo de sites e revistas do gênero, porém consciente de minha história étino-cultural, tenho motivação natural para me posicionar estruturadamente ante um fato que considero de extrema violência, hoje psicológica, amanhã física e letal, contra meus semelhantes negros, índios e qualquer outro povo considerado como minoria a ser massacrada por extremistas de uma suposta supremacia branca.

Já tive a oportunidade de fotografar Phil Anselmo com o Down duas vezes para revistas de Heavy Metal, e mesmo não sendo fã de Pantera ou do Down, é impressionante sua presença de palco e qualidade musical, por isso, como fã de música acho uma pena ver um dos maiores ícones do metal dos anos 90 se destacando por atitudes racistas e intolerantes, ao invés de ser por suas músicas.

Como cidadão africano em diáspora, fico indignado com os níveis de alienação coletiva dentro de uma cena que me acolheu quando adolescente, me tratando até então, como semelhante. Fico deveras indignado ao ver alguém tendo uma atitude explicitamente racista se safando por fazer um simples pedido de desculpas, transformando suas inspirações racistas em uma simples bebedeira e brincadeira de mal gosto. Acredito que Phil Anselmo não tem nada de inocente, e seu gesto não merece o perdão pela simples atitude de perdoar.

Apesar de ver muitos exemplos de conduta semelhante à de Phil Anselmo na cena rock e metal, especialmente nas redes sociais, ainda prefiro não generalizá-la como racista, pois sempre haverá boas pessoas e o contraponto a qualquer mal comportamento, além do fato de não conseguir medir assertivamente se a sociedade racista influencia o rock ou se o rock fascista influencia a sociedade racista.

Independentemente de qualquer coisa, enquanto as pessoas não estiverem dispostas a mudar a motivação de seus atos na vida real de forma cotidiana, ainda veremos muitos gritos pró supremacia branca vindos de futuros arrependidos beberrões como Phil Anselmo. Definitivamente estou velho e saudoso demais por estar afetivamente apegado ao século passado, quando falar de Phil Anselmo era somente falar de Heavy Metal.

[1] Headbanger (também chamado de Metalhead): É a denominação em inglês para os de fãs de heavy metal e suas variantes. No Brasil são chamamos Metaleiros, mas esse termo é considerado pejorativo para muitos fãs de Metal Extremo.

[2] Trending Topics: É uma lista gerada em tempo real das frases mais publicadas no Twitter ao redor do mundo. De forma simples são os Assuntos do Momento na internet.

[3] Lei de Lynch: O termo linchamento surgiu em 1782 a partir da expressão “Lei de Lynch” (Há controvérsias), a mesmo referia-se a ações praticadas pelo fazendeiro e político Charles Lynch. Charles teria usado a força contra suspeitos durante a Guerra Revolucionária Americana liderando um grupamento da Virgínia contra os suspeitos britânicos durante a guerra. Os capturados que eram julgados pela Lei de Lynch, eram sentenciados a chicotadas em público, prisão ou trabalho forçado. Há quem afirme que a origem do termo tenha surgido não de Charles, mas sim do capitão Willian Lynch. Que junto com aliados do condado Pittsylvania County, cunhou o termo “Lei de Lynch”, para penas severas que eles aplicavam.Há ainda quem credite a origem do termo, ao nome do prefeito irlandês, James Lynch Fitzstephen que em 1493, enforcou publicamente seu próprio filho na sacada de sua casa após condena-lo pelo assassinato de um visitante espanhol.

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A missão do Grupo Kilombagem é a apropriação, produção e difusão de conhecimento a cerca da humanidade e suas principais contradições sociais.

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