Adolescentes mostram o quanto são perigosos II – Por dentro das ocupações nas escolas: E.E. Maria Elena Colônia (Mauá)

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A truculência do Governo Alckmin não está intimidando essa moçada, que cada dia mais sabe o que quer. Desde quinta-feira, 19/11, quando  o governo anunciou que não vão suspender a reorganização, sentiram o efeito colateral, com mais ocupações surgindo a cada dia.

Tive a oportunidade de participar do almoço comunitário na E.E. Maria Elena Colônia, no Parque das  Américas em Mauá neste domingo, 22/11. Conversei com mães, pais, professores, mas meu foco era ouvir os estudantes que iniciaram a ocupação. Segue um pouco dessa aula prática.

Me contaram que a iniciativa foi de 5 alunos do 1º ano do Ensino Médio, na sexta-feira, 13/11,  porém os estudantes foram pressionados pela direção da escola a desistir da ocupação, a diretora chamou a polícia militar, inclusive. Esse fato fortaleceu os estudantes, que passaram a se conhecer e se articular decidindo “secretamente” ocupar a escola no horário do intervalo noturno na segunda, 16/11. A direção tentou novamente coagir a mudarem de ideia, mas não conseguiram e, a escola completa uma semana amanhã de ocupação, estão agendadas aulas públicas e atividades culturais.

Outro estudante do 2º ano, um dos responsáveis pela organização da ocupação contatou o MTST  (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) para ajudarem na ocupação com assessoria jurídica e organização da cozinha e limpeza. Ele enfatiza que o MTST está apenas no apoio e não a frente da ocupação,  e contam ainda com o auxilio de estudantes universitários, vizinhos, mães, pais e professores.

A escola é uma das que será afetada pela chamada reorganização do governo estadual, hoje tem Ensino Fundamental II e Médio, e passará a ter apenas o Ensino Fundamental II, e os estudantes do Médio terão que estudar numa escola mais longe de suas casas, e temem pelo fim do ensino noturno, que consideram imprescindível para os estudantes trabalhadores.

Ouvindo estudantes, mães e pais, o que pude lhes dizer é que estão fazendo história, e que ainda não fazem ideia do tamanho disso. Uma estudante compara as gerações, chamando a geração de seus pais de acomodada. Um outro pai pergunta: como vai ser depois da vitória ou da derrota? A educação nas escolas será a mesma? O comportamento dos estudantes em sala de aula será o mesmo?  Outro estudante universitário, que está no apoio da ocupação, problematiza o que considera grave: há uma geração de professores ainda muito conservadores na sala de aula, e completa dizendo que é preciso ter mais diálogo entre estudantes e professores. Comentamos ainda da importância do retorno dos grêmios estudantis.

Vou ouvindo tudo e anotando o que posso, fazendo alguns registros em vídeo e foto, enfatizo a importância de manterem os canais de comunicação, de articularem as propostas e me coloco a disposição pras aulas públicas, assim como a rede de professores que conhecemos.

A bandeira desta semana é o boicote ao SARESP, o exame estadual, que na opinião desses estudantes não serve pra nada, não é algo pra melhorar a educação, serve apenas para dividir a classe de professores.

Os estudantes reclamam da postura de alguns professores e funcionários, que estão dizendo e divulgando que o grupo não passa de vândalos. Mas eles fazem questão de mostrar como estão cuidando da escola, inclusive chamando mutirões. Embora estejam enfrentado certa resistência da comunidade que quer o retorno das aulas, os estudantes têm feito corpo a corpo com panfletagem na feira, e para eles as aulas já poderiam ter sido retomadas, porém a direção da escola, diz que só autorizará após o fim da ocupação, que não tem previsão enquanto suas reivindicações não  forem atendida: suspensão imediata da reorganização  por um ano e abertura de consulta pública. Otimistas, os estudantes acreditam que mais ocupações surgirão essa semana e que o governo será obrigado ao diálogo.

Me despedi por hora, levando comigo muitas aprendizagens, não sou a mesma, eles não os mesmos, e quem sabe consigamos que a ESCOLA também não seja mais a mesma, como canta Milton Nascimento: “Nada será como antes amanhã”!

Janaína Monteiro – Professora da rede pública e particular. Integrante do Kilombagem.

 

Janaina Monteiro

Formada em Ciências Sociais pela Fundação Santo André. Professora de Geografia e Sociologia da rede pública e particular. Militante do coletivo Kilombagem.

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1 Response

  1. antonina de sales disse:

    Sou de MG e estou emocionada com a luta dos estudantes de SP. Todo apoio a eles.

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