Por uma Psicologia antirracista: uma mudança na escuta, no olhar, no cuidado e acolhimento das questões que afetam as pessoas negras.

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“choro por estar dolorida, pela alegria, pelo cansaço, na contramão de todo descaso entre nós não existe o choro calado e nós choramos, choramos porque até o choro nos foi negado, mas a dor não queremos estar fadadas, fadados, descendentes não de escravos, mas de seres humanos plenos escravizados…seres humanos plenos escravizados.

Quero viver e não só sobreviver!”

  FARTURA DE VIDA - Letra : Nayra Lays e Gabriela Juliano

As pessoas negras que são frequentemente expostas a violência racista costumam apresentar sentimentos negativos sobre si como a sensação de impotência, a desesperança no futuro, sentimento de inadequação, algumas pessoas tem dificuldade em  dimensionar o impacto emocional que evento provocou, outras apresentam uma condição chamada de hiperexcitabilidade psíquica e  psicomotora que é a manifestação de sintomas como  taquicardia, sudorese, tonturas, dor de cabeça, distúrbios do sono, dificuldade de concentração, irritabilidade, hipervigilância e grande angústia ao se expor a situações semelhantes.

Penso que, devido a complexidade em se estabelecer  relações raciais equânimes na nossa sociedade, psicólogas e psicólogos, em geral, ainda não estão preparados para lidar com as questões raciais nos consultórios, ambulatórios e atendimentos de saúde. Entretanto, acredito que é possível se preparem, visto que  a Psicologia enquanto ciência e profissão demandada pelas ações e atuações do movimento negro brasileiro  tem se empenhado na produção de arcabouço teórico e normativo que supere o racismo, o preconceito e as diferentes formas discriminação, porém é necessário que categoria de profissionais  entendam o racismo como uma categoria analítica das condições psíquicas tanto na vida das pessoas afetadas pelo racismo como daquelas que o praticam, entendendo seus  elementos de dominação social, econômica, cultural e política para que seja possível compreender a sua força, seus múltiplos significados e seus efeitos psicológicos.

 

É preciso informação diante do despreparo para lidar com o tema

Diante de um profissional despreparado é necessário uma população bem informada, existe uma regulamentação específica para a prática profissional em Psicologia que estabelece normas de atuação para as psicólogas e os psicólogos em relação ao preconceito e à discriminação racial  desde 2002, na forma da resolução CFP 018/02 segundo a qual as/os profissionais devem contribuir com seu conhecimento para uma reflexão sobre o preconceito e para a eliminação do racismo, não podendo serem omissos e nem coniventes ao crime de racismo. A partir do conhecimento dessa resolução a população atendida pode e deve exigir que psicólogas/os respeitem as normas de atuação cientes de que podem incidir em falha ética. No entanto, é importante ressaltar que não existe uma ética profissional desvinculada de uma ética social, por isso se faz tão importante o enfrentamento do racismo na sociedade como um todo. Constatando e revelando as ações racistas constrangedoras e criando espaços coletivos para construir ações conjuntas.

 

 

Ao focalizar a formação da/o psicóloga/o brasileira/o nota-se que  temática ainda aparece de forma insuficiente na graduação em Psicologia, apesar da  Resolução CNE/CP nº 1/2004, publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 22/6/2004, que  instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação das relações Etnicorraciais e para o ensino de história e cultura afrobrasileira e africana: “ § 1° As Instituições de Ensino Superior incluirão nos conteúdos de disciplinas e atividades curriculares dos cursos que ministram, a Educação das Relações Étnico-Raciais, bem como o tratamento de questões e temáticas que dizem respeito aos afrodescendentes” não são todas as instituições que possuem a disciplina em suas grades e a ABEP (Associação Brasileira de Ensino em Psicologia) até o momento não inseriu essa exigência nas Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Psicologia.

Nesse ínterim, já contamos com cursos específicos  para a formação da/o profissional como o   Curso Teórico-Vivencial PSICOLOGIA E RELAÇÕES RACIAIS ministrado pelo Instituto AMMA Psique e Negritude que oferece à discente acesso a conhecimentos que possibilitem a compreensão e a intervenção nos processos intra/interpsíquicos, grupais e institucionais visando o enfrentamento do racismo interiorizado e institucional. E o Curso: Reflexões Sobre Racismo e Saúde Mental da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp, que tem entre os objetivos:  Refletir acerca do impacto do racismo na saúde mental.

 

 

Não obstante, as relações raciais são abordadas por psicólogas e grupos de pesquisas em Psicologia nas universidades brasileiras. Acredito que desde 2002 com a primeira publicação de Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil  livro resultado de parte de um estudo feito pelas organizadoras  Iray Carone e Maria Aparecida Silva Bento  sobre a negritude em São Paulo, objetivando captar os efeitos psicológicos do legado do branqueamento sobre o processo de construção da identidade negra, vários estudos foram e estão sendo realizados, eu destacaria  o livro Relações raciais no Brasil:pesquisas contemporâneas. 1ed.Sao Paulo: Contexto, 2011 l organizado pela psicóloga e professora da PUC São Paulo Fúlvia Rosemberg in memorian.

 

Quando iniciei minha trajetória na Psicologia eu tinha consciência de que as pessoas negras, em geral, enfrentam dificuldades estabelecidas por barreiras atitudinais de base racistas no contexto da vida profissional, o processo seletivo para estágio em serviço público foi o que me permitiu adentrar,  durante minha graduação estagiei no serviço público atuando mais especificamente na política de Assistência Social onde iniciei relações profissionais que mantenho até hoje, permaneci na mesma politica social após a graduação, porém em um no cargo de nível médio similar a um educador social, trabalhei em CRAS Centro de Referência em Assistência Social, os conhecimentos da Psicologia eram valiosos para execução cotidiana do meu trabalho com as famílias.Minha prática profissional enquanto psicóloga acontece na clínica, onde me deparei com um estranhamento vindo de clientes brancas/os que  se dissolvia na medida em que o vínculo terapêutico se estabelecia. Atualmente, devido indicações e reconhecimento do meu posicionamento político de enfrentamento ao racismo e eliminação da discriminação tenho sido mais  procurada por pessoas negras e faço supervisão clínica com um profissional que tenho muita admiração, um psicólogo negro que possui uma carreira bem consolidada, avalio isso como um aspecto positivo, mesmo reconhecendo que ainda somos poucos profissionais em comparação com a população negra que representa a maioria na sociedade brasileira. Neste cenário o racismo se manifesta  tanto a recusa no eixo Profissional-Pessoa atendida com a falta de escuta qualificada, de capacitações que geram  atendimento inadequado considerando o tempo, o apreço e a importância da queixa do paciente; falta de conhecimento sobre o sofrimento causado pelos agravos de discriminações sofridas; como no eixo Pessoa atendida-Profissional manifestado pela recusa em ser atendida por profissionais negros(as); desmerecimento de diagnóstico e atendimento realizado por esses profissionais; esquiva no olhar e negação do profissionalismo por questões étnico-raciais.

No que tange a grupos de ajuda psicológica para lidar com o racismo,  participei de um grupo que é resultado da organização autônoma de mulheres negras chamado Núcleo Mulheres Negras: O amor cura, formado por mulheres, a maioria moradoras na Zona Sul de São Paulo e durante um ano participamos do Projeto MULHER NEGRA E SAÚDE MENTAL: cuidado e autocuidado, durante esse período identificamos por meio de oficinas e vivências os efeitos do racismo em nossa saúde e em nossas relações sociais, familiares, amorosas e trabalhistas, essas reflexões permitiram traçar estratégias coletivas de superação dessas barreiras sociais e atitudinais.

 

Finalmente, no que diz respeito afastamento de psicólogas e psicólogos em relação a ao racismo. Não entendo que exista de fato um afastamento de psicólogas/os do tema, pois ela não surgiu ligada a essa temática, se observarmos a história da Psicologia no Brasil perceberemos que, desde sua regulamentação, ela surge como uma profissão comprometida com interesses da elite brasileira, influenciada pelos parâmetros europeus e estadunidenses  as /os psicólogas/os centravam sua prática em clínicas particulares,  faziam uso dos testes psicológicos na área da medicina, em processos de seleção de pessoal para as indústrias e nas escolas diferenciando e determinando pessoas sob uma perspectiva de ajuste e de cura, focada em um modelo de homem específico – adulto, jovem, branco e de classe média – generalizou seus conhecimentos na prática profissional como se esse homem fosse universal, por tanto não havia um aproximação, aos poucos a Psicologia buscou estender seus conhecimentos de forma específica a criança, a pessoa idosa, a mulher, mas manteve-se longe das questões relacionadas às relações etnicorraciais, apesar das pesquisas sobre relações e interações raciais existirem desde o início da Psicologia no Brasil,  a atuação profissional se manteve distante da população discriminada, logo podemos considerar que a atuação profissional demanda novas posturas em suas práticas.

Por uma Psicologia antirracista!

O movimento negro  tem demandado a Psicologia uma mudança na sua escuta, no seu olhar, no seu cuidado e acolhimento das questões que afetam as pessoas negras e indígenas e a forma que a parcela engajada dos profissionais tem respondido a essa reivindicação tem sido mostrar que não existe neutralidade racial nas relações sociais e por isso devem reconhecer na atuação profissional que o racismo é um dos marcadores de sofrimento psíquico que influencia e agrava a saúde mental. É manter-se atentos as nuances dos sintomas psicossociais do racismo.

É necessário não silenciar diante das queixas e/ou evidencias do racismo, para não correr o risco de promover uma nova violência, ao não levar em conta a queixa da pessoa que se sente (ou sentiu) discriminada. 

Link da música: FARTURA DE VIDA   www.youtube.com/watch?v=KlS572EcFWY

Ivani Oliveira

Psicóloga - CRP 06/121139 - membro da ABRAPSO (Associação Brasileira de Psicóloga Social). Graduada em Psicologia pela Universidade Bandeirantes de São Paulo; Mestrada em psicologia social na PUC-SP; Conselheira do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo; Pesquisadora do NUPRAD (Núcleo de pesquisas praticas discursivas cotidiano): Direitos, riscos e saúde na PUC de São Paulo; Experiência de atendimento em grupo de mulheres; Desenvolve estudo sobre construção identitária, Negritude, Feminismo e relações etnicoraciais. Atua com atendimento psicológico clínico no município de Santo André.

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2 Responses

  1. Ivani Oliveira disse:

    Prezada e querida Cintia,
    Fiquei muito feliz com seu comentário, acredito muito no seu trabalho e admiro cada dia mais a sua sensibilidade aguçada para olhar a singularidade da vidas das pessoas que atende.
    Saiba que a gratidão é mútua entre nós!

  2. Cintia Helena Bulgarelli Freitas disse:

    Querida Ivani,
    Uma vez, uma colega de trabalho, assistente social e, por sinal, muito querida, me perguntou se havia referências sobre o trabalho psicológico com pessoas negras e eu, como bem disse o texto, pela minha formação que não contemplou essas especificidades, não soube responder.
    No entanto, guardei esse questionamento e, agora, no mestrado, estou tendo a oportunidade de aprender.
    No serviço público em que trabalho, já fiz alguns atendimentos a mulheres negras e posso dizer que alguns doa elementos citados no texto apareceram, a partir da escuta.
    Coincidentemente ou não, eram mulheres fortes, que me apresentaram o mundo religioso e suas inserções no candomblé.
    A partir do tema, estabelecemos um vínculo de transferêncial que permitiu o trabalho de outras questões muito significativas para elas.
    Ivani, muito obrigada pelas suas contribuições e me sinto honrada de estarmos no mesmo Núcleo, onde a diversidade se faz presente de maneira tão rica e importante para nossa atuação profissional.

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