Saber tradicional das parteiras e o movimento brasileiro pelo parto humanizado

 

Abaixo indico dois importantes videos sobre parteiras e parto. Um está no youtube há mais de 5 anos e tem 7 curtidas, o outro está no site há poucos meses e não tem sequer 5 curtidas.

Esses números são emblemáticos. Funcionam como uma espécie de termômetro e indicam com muita eloquência o fenômeno de mais uma apropriação da cultura e ciência produzidas e cultivadas pelo povo preto no Brasil: a arte de ajudar a nascer.

São dois curtos documentários que tiveram a felicidade de registrar parte do trabalho e do conhecimento das parteiras Kalunga, mulheres remanescentes quilombolas, do interior de Goiás, que ajudaram a vir ao mundo de modo humanizado, para usar um termo bastante em voga, centenas e centenas de bebês, trabalho esse que está em franco processo de extinção na localidade em que elas vivem e, contraditoriamente, em forte expansão nas grandes cidades, entre mulheres brancas de classe média e classe média alta, que, cada vez mais, se percebem enganadas, senão mesmo violentadas no momento vulnerável do parto dentro do ambiente hospitalar. É a chamada violência obstétrica.

O processo é conhecido: a ciência médica branca ocidental chega, apavora, ameaça e intimida o fazer tradicional não branco, desqualifica-o, extingue-o e se coloca como única alternativa. Por outro lado, fundando-se nos mesmos princípios do saber tradicional, agora com roupagem científica, uma ala branca o resgata como seu.

A importância desses filmes consiste justamente em mostrar a grande sabedoria e sensibilidade dessas mulheres descendentes de escravizados rebelados. Sororidade é um termo que muito provavelmente elas desconhecem, mas praticam ancestralmente.

Também têm o mérito de evidenciar em curtíssimo tempo a violência do discurso médico obstétrico. Este, do alto de sua arrogância colossal, usa a expressão “fiz x quantidade de partos”, quando, na verdade, quem faz o parto são as mulheres e seus bebês.

As mulheres Kalunga, extremamente sábias, por seu turno, usam a expressão “peguei o menino”, como quem diz: “o recebi, ele veio, o ajudei”.

A médica presente no vídeo “Parteiras Kalunga” deixa escapar, na “melhor das intenções”, seu preconceito e sentimento de superioridade, como sempre acontece quando a hierarquia não cai. Ela diz: “as parteiras fazem ‘INTUITIVAMENTE’ o que muitos médicos não sabem fazer”. Ora, é um desrespeito sem tamanho qualificar anos de observação empírica e análise teórica, teorização que acontece utilizando todos os recursos que essas mulheres tem a sua disposição, de intuição, caracterização que aproxima o fazer delas da mágica, do sortilégio.

Esses videos analisados contra o pano de fundo do movimento do parto humanizado no Brasil desvelam mais uma face do racismo institucionalizado e mostram que o parto humanizado pode estar à disposição não apenas das mulheres brancas de classe média e classe média alta que o encampam, mas também das mulheres pobres e assalariadas, pois, na verdade, surgiu entre elas. Para isso, um movimento por parteiras públicas, remuneradas pelo governo, um exército delas, para atuar nas grandes cidades, inclusive, faz-se urgente. Evidenciam, por fim, que qualquer movimento por saúde, dignidade e respeito envolvendo o ato de parir centrado exclusivamente em quem pode pagar,  não universal portanto, é mais uma balela elitista brasileira.

 

Confira os Videos

Saberes das parteiras Kalunga

As parteiras Kalunga

Brisa Kamulenge

Brisa Kamulenge é formada em Ciências Sociais pela USP e é funcionária pública federal.

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