Salvador Cidade Túmulo

A Reaja Segue a Luta Enfrentando Espinhos, Depositando Crisântemos e Plantando Girassóis.

REAJA

No Engenho Velho de Brotas, me ligou um amigo muito sentido, triste e angustiado. Um dos meninos que morreram na porta do Teatro Solar Boa Vista era surfista e adorava girassóis.

Era uma noite como outra qualquer no bairro. A barraca de frutas seguiu aberta até mais tarde, a padaria fechou mais cedo porque acabou o pão, a turma do futebol se revezou na quadra, pois apareceu o time dos casados e teve que haver negociação; as tias desciam a Ladeira de Nanã com suas bolsas: uma pequena compra para os filhos e o cansaço vindo da casa de algum branco rico que a explora em mais de 12 horas de trabalho. Da laje, um casal olhava as luzes da Fonte Nova ao fundo, na esquina os mesmos olhadores da vida alheia observavam as moças passando para a academia. O pastor subiu apressado para o culto da noite, o Babalorisà passou com um mocó nas mãos para despachar as oferendas oferecidas no sábado anterior para Iemanjá. A vida no Engenho Velho seguia. Até que a morte tolerada e patrocinada pelo governo, se instalasse naquela noite de muitos cadáveres.

Um carro preto, com homens fortemente armados passou “inexplicavelmente” pelas barreiras policiais que o governo monta nas entradas de favelas. As autoridades não explicam quando dão sua versão de guerra entre o trafico, para explicar essas chacinas em bairros totalmente controlados militarmente e submersos numa rotina de baculejos e revistas de moradores. Um carro preto com homens fortemente armados e de tocas ninjas, transita livremente, até atirar com bala Ponto 40 em suas vítimas. Tem uma conta que não bate. O carro preto e de placa fria, lotado de atiradores entrou no Parque Solar Boa Vista e dirigiu-se a mesa de jogar damas, ordenou que três rapazes deitassem no chão, dentre esses, estava o rapaz surfista que gostava de girassóis. Dispararam. O parque ficou vazio, os presentes correram e alguém testemunhou que um dos homicidas portava um distintivo da policia. Mas quem é louco de falar? “Se Falar morre!”, diz o ditado que a Campanha Reaja insiste em contrariar.

A polícia passou com sua disposição de coletor de corpos negros. Com esses três corpos, seis antes deles e mais 12 depois, somamos 21 corpos mortos nessa guerra genocida que se trava contra nós.

O Engenho Velho de Brotas é um bairro calmo para o padrão de comunidades pretas da Bahia, sediado ao lado do Dique do Tororó ou Dique dos Orixás, cartão postal de Salvador. Repousa emblematicamente sua cabeça nas matas sagradas que ainda restam no Ogunjá, onde um Babalorisà, chamado Procópio de Ogun, enfrentou nos anos 30, a polícia do delegado Pedrito Gordo que fechava candomblé e matava capoeira só por diversão, a mesma polícia que nos ceifa a vida agora mesmo, sob a cumplicidade de autoridades e instituições que dizem defender os Direitos nessa cidade.

Do Engenho Velho de Brotas surgiram e continuam a surgir manifestações culturais que são um primor da História e da Memória Cultural dessa cidade. Uma terra de maioria negra, onde o capital simbólico serve tão somente para enriquecer brancos. Mesmo que sejam estes cantores e cantoras de talento abaixo da crítica, e ainda como se não bastasse, estes deliberadamente proclamam-se como a “cor da cidade” ou então se locomovem pelo violento carnaval da cidade num “camarote andante” como declarou Saulo Fernandes ao desfilar nas costas de um segurança preto, protagonizando uma cena de linchamento cultural sob aplausos de inúmeros fãs. Os mesmos que confortavelmente desfrutam de seus ensaios de verão, e ironicamente: “quase todos pretos de tão pobres”. Enquanto isso, a política higienista de ACM Neto aglutinada à polícia racista de Jaques Wagner e seu amigo de colo Otto Alencar, calam-se sobre nossas mortes aos montes, sob o argumento de estarem promovendo a igualdade, e não menos importante: esse discurso descansa num leito defendido por alguma preta ou preto, caladinh@s.

  

Muitas Mortes no Nordeste de Amaralina e em toda Parte da Cidade- Assim, falamos em Genocídio.

O Nordeste de Amaralina é um aglomerado de comunidades de negros que fica à beira mar, comporta a Santa Cruz ,o Vale das Pedrinhas e o Nordeste de Amaralina propriamente dito.   Essas comunidades, bairros negros, sofrem as consequências de resistir à especulação imobiliária e o racismo contido nas políticas urbanas da Bahia (desenvolvimentista-brancocêntricas), eles ladeiam os bairros nobres da cidade como a Pituba e o Itaigara e não sabem o que é o Estado, esse ente abstrato que só nos trata à base da repressão policial.

O Governo do Estado arquitetou uma política de Segurança cheia de alardes e armamentos, com promessas vazias de emprego e serviços públicos associados ao controle e a militarização do espaço. Apresentaram o “Pacto Pela Vida” que Marina Silva e Lídice da Mata tanto elogiam em seus programas eleitorais. A Campanha Reaja foi ao lançamento desse Pacto e apresentou um documento falando do fracasso previsível de uma política de segurança baseada numa lei que estabelece um “inimigo interno”. Uma lei de sistema de defesa social abraçada pelas chamadas lideranças negras cooptadas, que insistem em falar em nosso nome. Enfrentamos a tentativa de calarem nossa voz, porém ao fôlego pleno de nossos pulmões, lemos nosso manifesto: (http://pensandoeseguindo.blogspot.com.br/2011/06/reaja-ou-sera-morto-reaja-ou-sera-morta.html).

De lá pra cá? Mortes e mais mortes negras se acumulam. E os defensores desse “Pacto”, dentre eles líderes negros que se prostram ao discurso do Candidato ao Senado, Otto, amigo íntimo de Antônio Carlos Magalhães. Otto Alencar não se envergonha de ser ele mesmo, na campanha eleitoral ao Senado Federal na chapa de Rui Costa (PT-BA), declarou que fará de tudo para reduzir a maioridade penal, e que quer revisar o código penal brasileiro e ainda para completar afirmou ser a favor da Prisão Perpétua e da Pena de Morte. A Pena de Morte já se espalha na Bahia nas comunidades pobres e é executada por policiais civis e militares, ao curso de inquéritos policiais arquivados, e de um Ministério Público silente e omisso. Resta-nos enfrentá-los com o que temos: organização, solidariedade com os familiares das vítimas e protestos.

Lídice da Mata, Otto Alencar, Rui Costa e Paulo Solto, todos brancos beneficiários do racismo, fazem suas campanhas ao largo de nossas dores, contam com apoios importantes de líderes negros que se escondem e envergonhados e nada dizem sobre as promessas de mais repressão, polícia e cadeia na agenda eleitoral. Um dos cúmulos de todo esse processo, foi um convite para celebrar o aniversário da Frente Negra Brasileira, numa atividade de Campanha eleitoral diante de tantos mortos, que como sabemos, olham, os que negociam nossa ancestralidade na bolsa de valores de cargos e migalhas, e dizem que disputam nosso projeto por dentro.

Nós da Campanha Reaja, em plena Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro, fomos intimidados pela polícia militar, através de um soldado com recados ameaçadores nas redes sociais afirmando: “quando vier para a PM venha de ladinho”, e um recado direto e presencial:” se vier de lá, a PM vai de cá” proferida, por um oficial. Manifestamos via e-mail o fato junto a Sepromi que tem um órgão denominado Centro Mandela, teoricamente construído para defender os direitos dos negros e das negras. A Campanha Reaja – Quilombo Xis é uma organização de negras e negros, com negras e negros para a defesa de negros e negras, não pedimos cargos ou atenção pessoal, mas a Sepromi não pode nos ignorar numa situação tão grave como esta e que envolve a segurança pessoal de militantes da reaja espalhados pela cidade. Esses órgãos precisam falar o que pretendem seus colegas de governo, ou declarar que não dialoga conosco porque não somos politicamente afinadas e afinados com essa política de Pão, Circo, Seminário e Morte que resta ao nosso povo.

Nós nos acostumamos a depositar crisântemos nos túmulos de nossa gente morta pela política de Segurança Pública na Bahia, tocada igualmente por todos os governos. Acostumamos-nos ao silêncio de nossos irmãos negros quando somos perseguidos por falarmos o que não pode calar; acostumamos-nos as dores das mães, a indiferença das ONGs, ao desprezo das organizações de Direitos Humanos e ao apoio dos nossos em cadeias, favelas, vilas e nas ruas. Por isso seguimos atuando e politizando nossa morte e colocando o conteúdo racial dessa política que nos mata. Mas não podemos ser acomodados diante do fracasso da luta negra na cidade, diante do sequestro dessa agenda de luta, diante da traição aos ancestrais que tombaram por nossa humanidade.

As ruas estão buscando mudanças com o que possuem: sua própria fúria, ira e verdade. Fazem barricadas e enfrentam as retaliações da polícia, porque ao contrario da propaganda eleitoral, não veem progressos em suas vidas e comunidades, apenas morte.

Os negros e as negras saindo desgovernados pedindo migalhas não indica sinal de progresso!

Os negros e as negras em silêncio diante dos corpos abatidos de seus irmãos não é sinal de progresso!

Os negros colaborando com a política genocida dos brancos, de esquerda e direita, para se sentirem destaque num cargo que lhes oferecem com desprezo nas secretarias e ministérios, não é sinal de progresso !

A Reaja vê mais progresso, nas barricadas que se montam politizando a morte cruel de nossa gente , nos protestos, no cheiro de pneu queimado com sabor de crisântemos e girassóis.

 

Nem um passo atrás

Nem um passo atrás

Hamilton Borges Walê

Quilombo Xis – Ação Cultural Comunitária

Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto.

III Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro.

Diretamente da Cidade Túmulo Salvador.

kilombagem

A missão do Grupo Kilombagem é a apropriação, produção e difusão de conhecimento a cerca da humanidade e suas principais contradições sociais.

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