Ser ou não ser do lar: uma falsa questão.

Seriado estadunidense dos anos 60 / 70, pra vender eletrodoméstico.
Seriado estadunidense dos anos 60 / 70, pra vender eletrodoméstico.

A mídia burguesa não dá ponto sem nó, e a revista Veja agiu com rapidez para projetar  uma imagem de Michel Temer como um grande líder, respeitável, com uma esposa “bela, recatada e do lar”, ou seja, projetar um modelo de família dentro dos padrões conclamados no último domingo pela maioria dos deputados durante a votação do processo de Impeachment.

A matéria sobre Marcela Temer causou polêmica ao exaltar padrões de beleza, reforçando o modelo de “ser bela” como branca e magra,  enquadrando o comportamento da mulher ideal como recatada, termo que endossa o discurso machista-racista: essa é pra zuar e essa é pra casar. E retoma, o que eu chamaria do efeito Feiticeira (da série de TV), da mulher com superpoderes que poderia ser tudo o que quisesse, mas escolhe abrir mão em detrimento do marido, dos filhos e do lar.


Os
 estereótipos reforçados pela matéria são um ataque explícito aos movimentos feministas, o que fez com que se tornasse um viral na internet, dividindo opiniões, principalmente quanto ao fato de ser ou não ser do lar, o que me leva à algumas reflexões que divido aqui com vocês.

 

 

Ser do lar vamos combinar que não é uma escolha que está posta pra maioria das mulheres, por vezes é uma escolha do homem, porém, cuidar e educar os filhos de forma integral é um desejo de muitas, (já foi o meu, inclusive) isso, levando em conta que se possa ter alguém pra ajudar financeiramente.  Pra algumas essa situação foi a mais viável pra sua vida em determinado momento e, o que pode ser visto como privilégio em alguns casos, em outros coloca-se como a única opção para não entregar os filhos à marginalidade (o que já me relataram muitas mães de adolescentes em situação vulnerável), outros casos ainda, essa escolha é feita por não conseguir pagar uma escola, ou uma cuidadora, haja visto a falta de acesso às creches públicas no nosso país.

 

 

Não ser do lar no capitalismo essa não é bem uma escolha, mas uma realidadea classe trabalhadora é massivamente composta por mulheres, que enfrentam dupla e tripla jornadas, estando à frente das suas famílias como as principais responsáveis pelos sustento da casa. Nós mulheres conquistamos autonomia e independência ao longo da história, associar o retorno ao lar como um retrocesso é compreensível.

Ser ou não ser do lar é uma falsa questão e fazer a crítica a matéria da revista Veja é ato político e necessário, num momento importante, com leis sendo aprovadas que nos impõem retrocessos e perda de direitos básicos, sobretudo, pras nós mulheres negras e da  classe trabalhadora.

A violência contra nós só tem aumentado dentro e fora do lar, não esqueçamos de Claudia Silva Ferreira que foi assassinada e arrastada pela viatura PM do Rio de Janeiro.


As desigualdades de gênero permanecem e é preciso ainda lutar muito contra isso, o que torna o fato de ser ou não do lar totalmente irrelevante, sendo o mais importante cada mulher combater e mobilizar as demais do lugar onde quiser (ou puder) estar!!!

 

MULHERES, UNI-VOS! Ainda temos muito a fazer!

 

(Janaína Monteiro – Professora de Sociologia, do Kilombagem).

Janaina Monteiro

Formada em Ciências Sociais pela Fundação Santo André. Professora de Geografia e Sociologia da rede pública e particular. Militante do coletivo Kilombagem.

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