Sobre Educação e Apropriação Privada do Conhecimento;

Primeiras Considerações

José Evaristo Silvério Netto

(Opinião do colaborador) 

De certo que quando se discute sobre Educação, torna-se objetivo o debruçar sobre as relações raciais, problematizando as desigualdades e relações de poder que traduzem o racismo, à luz de diversas áreas a citar a educação.

Problematizar o racismo na e da educação, significa entender que o termo Educação trás consigo múltiplas possibilidades de objetivação e significação, e, por isso, entendo ser necessário situar o objeto de investigação para a análise, podendo ele ser a Educação escolar, a Educação social, Educação familiar, a Educação de um movimento social, ou outra, e tudo isso para não incorrer em análises superficiais e intervenções pouco significativas.

O Esporte - Fenomeno social - é apenas uma das muitas possibilidades educativas circunscrita pelo mecanismo de apropriação privada do conhecimento.

Existem debates interessantes no meio acadêmico, especificamente no campo teórico da Pedagogia Social – área de concentração de estudos em processo de estruturação – em que a posição política leva em consideração: a expansão e internacionalização da economia capitalista num contexto de hegemonia ideológica neoliberal; formas acríticas e automáticas de analisar a escola enquanto incapaz estruturalmente para preparar os estudantes em função das supostas necessidades da economia; a centralidade dos meios de comunicação de massa no norteio do modo de vida das pessoas, atuando como agentes motivacionais de novas formas de socialização, entre outros processos; estes tendo relação com a revalorização da Educação Social. Neste metiê, merece destaque a disputa entre interesses e contraditórias racionalidades políticas e pedagógicas sobre o campo de Educação não escolar, haja vista a crise da Educação escolar e o potencial de mobilização que possui.

Um ponto que gostaria de discutir de toda esta gama de possibilidades de entendimento faz menção ao processo de apropriação privada do conhecimento, traduzindo a industrialização deste conhecimento com o apoio das estruturas de ciência e tecnologia que têm nas patentes e nas pesquisas científicas referendadas pelos órgãos de fomento as fontes de desigualdades e privilégios da dinâmica racista e capitalista.

A problematização da apropriação privada do conhecimento, que se discute na Pedagogia Social, versa sobre a caracterização dos saberes construídos pela via dos cinco sentidos humanos – audição, palato, tato, visão, e olfato – como saberes não formais. Desta maneira, são rotulados como não científicos, ficando fora do interesse da escola, da academia, atendendo aos imperativos do capitalismo científico que responde por transformar estas propriedades inerentes aos órgãos dos sentidos em indústrias a serviço do capital. De forma geral, entendemos que o corpo humano capta informações primárias na relação com o meio, processa-as internamente introjetando, identificando e integrando estas informações, agora conhecimento útil, e, depois, utiliza este conhecimento para interação social. Talvez seja possível entender enquanto Cultura, do ponto de vista do indivíduo, e Educação, do ponto de vista da relação com o outro, embora esta seja epistemologicamente difícil. É possível considerar este tipo de Educação (da relação com o outro, norteada pelo conhecimento construído por meio da cultura – processos ontológicos de tratamento da informação, de produção de conhecimentos e de comunicação com o outro, patrimônio da espécie humana), como Educação sociocultural, um dos pilares da Educação Social de acordo com a Pedagogia Social.

Finalmente, defini-se e problematiza-se a apropriação privada dos esquemas de aprendizagem sociocultural pelo capital, tomando os cinco órgãos do de sentidos do ser humano pelas indústrias:

  1. Da visão: ótica e cultural, que condicionam nossos sentidos através de câmeras fotografias, lentes, microscópios, cinema, vídeos, televisão, shows, e etc.
  2. Da audição: militar, telemetria, telefonia, sensoriamento remoto e geoprocessamento, que condicionam nossos sentidos através do telégrafo, rádio, radar, sistemas de telefonia, e etc.
  3. Do tato: ferramentaria, metalurgia, motores, que condicionam os nossos sentidos através de ferramentas de todos os tipos, sensores, e etc.
  4. Do palato e o olfato: alimentícia, farmacêutica, química, perfumaria, que condicionam nossos sentidos através dos alimentos industrializados de todos os tipos, essências e perfumes, solventes, enzimas, e etc.

Desta maneira, entendo que existe uma racionalidade que se pretende promover um processo de colonização e uma dimensão imaterial do capitalismo moderno. Este processo de privatização do conhecimento se traduz por uma restrição sem precedentes ao direito à Educação, onde universidades, indústrias e governos são cúmplices. Mais do que cúmplices, criaram os meios de controle deste mecanismo de apropriação privada do conhecimento por meio das regras de fomento à pesquisa.

Entendo que a discussão sobre Educação na perspectiva da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da cultura e história dos afro-brasileiros e africanos na Educação escolar, seja realizada sem perder de vista que, de início, é importante desconstruir a apropriação do capital sobre nossa noção de realidade – mentes colonizadas.

José Evaristo Silvério Netto

Graduação em Educação Física pela Universidade Estadual Paulista - UNESP, mestrado em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina. Atua profissionalmente como consultor técnico do Departamento Pedagógico (Núcleo Pedagógico Multidisciplinar) do Grêmio Recreativo Barueri (GRB), e como professor da rede de ensino na Secretaria de Educação de Osasco - SP. Em Barueri, esta à frente dos estudos sociodemográficos envolvendo jovens engajados nas atividades dos Núcleos de Formação Esportiva do GRB. Participa do grupo de pesquisa em Pedagogia Social, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo - FEUSP, onde pretende fazer o doutorado em Educação.

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