Universo Preto Paralelo

Fruto do hip-hop e da luta negra que conheceu na metade dos anos 1990, com a banda Uafro, Bá Kimbuta usa sua formação como percussionista, compositor e militante para espalhar sua mensagem.  O polivalente MC lançou recentemente o disco “Universo Preto Paralelo”, álbum que merece atenção pela ousadia instrumental e  temática política. No dia 30 de junho (sábado), às 21h, Bá Kimbuta apresentará as músicas de seu novo disco no Teatro Clara Nunes, no centro de Diadema (SP). O CHH trocou uma ideia forte com o MC. Abaixo, leia a íntegra da entrevista.

 

Central Hip-Hop (CHH): Bá Kimbuta por Bá Kimbuta…
Ba Kimbuta: Bá Kimbuta é um homen preto, fruto do movimento hip-hop e negro, que atua nas periferias de São Paulo e ABC enquanto militante, e utiliza a música como arma. É pai de três filhos: Kaique, Ayan e Luanda. Está em busca do conhecimento e da emancipação humana.

CHH: Pegando essa questão de ser homem preto, quando essa consciência veio à tona?
Ba Kimbuta: Em 1996iniciei no hip-hop através de uma banda chamada Uafro. Nesta época, já observava as mazelas que o Estado, o colonialismo e capitalismo tinham deixado como herança. Percebemos porque os malucos envolvidos com o álcool e tráfico eram pessoas pretas, as empregadas domésticas eram pretas, quem morava amontoado e de qualquer forma eram os pretos. Aí, quando montamos a posse NegroAtividades e tivemos contato com as questões políticas e raciais. Só tivemos a certeza de que era uma questão histórica e estava ligada a África.

CHH: E a Uafro? A construção musical da banda é impactante. Como chegaram a esse formato e por que não saiu um disco?
Ba Kimbuta: Uafro passou por uma transformação musical quando deixamos de fazer no formato DJ e MCs e começamos a introduzir elementos sonoros alternativos, tipo cano de pvc, tocar em latão mesclando cantos africanos…Só podemos ter essa sensibilidade quando nos aproximamos de nossa história. O Robson Dio teve a percepção e um olhar mais profundo sobre nossa história, e precisava ir além dos toca-discos.

O contexto politizado estava ganhando corpo, estávamos conhecendo Malcom X. Na época, as posses eram muito fortes, estavámos cheios de gás e os movimentos sociais ainda não eram ONGs. Estávamos em outro cenario politico: Era foda!!! O disco não saiu porque tivemos pontos de vista diferentes sobre esse aspecto de como trabalhar a informação e ela não virar só um produto. Então deixamos no gelo, mas a Uafro está viva, existe a possibilidade de voltar.

CHH: Ouvindo seu trabalho, percebe-se o teor afrocentrado. É viável ser afroncetrado no rap?
Ba Kimbuta: O disco vai além da questão racial, apesar de ser o foco. Tentei trazer coisas do cotidiano, como a vivência no albergue, a questão de gênero em “Marias”, por exemplo. Mas a minha história é essa, não teria que ser diferente por fazer um disco de rap misturado com outras vertentes. Minha vida está ligada nessa vertente africana, na questão de como a parada foi organizada pra nós, como se desenrolou nossa sobrevivência depois da escravidão.

Então meu som é isso, mas penso que não podemos nos limitar, temos que nos apropiar de um todo, não ficar só no específico. Temos que discutir economia, que está na mão dos boys, educação, reforma agrária. divisão de terra, a violência contra as mulheres e tudo mais, sem perder o foco no específico.

CHH: Um dos discursos que andam em voga é este: falar o que você pensa está esgotado, é estar numa “amarra” que atrasou o rap nacional. O que pensa sobre isso?
Ba Kimbuta: Penso que existe vários equívocos. Se alguém afirmar que não existe mais racismo no Brasil, eu pediria para provar, pediria pra provar porque morremos mais, trabalhamos mais e ganhamos menos. Estamos sendo exterminados pela policia  e trocando tiros entre nós pra adquirir o que a burguesia consome e de uma forma muito mais violenta. Eu falo dessas paradas. Enquanto isso, o governo vende uma ideia de nova classe média e quem compra um carro do ano e uma TV de plasma está enquadrado nesse perfil.

CHH: E o CD “Universo Preto Paralelo”? Como foi concebido?
Ba Kimbuta: Na banda Uafro, teve uma época que o Raphão Alaafin fez parte e somou demais. Inovou com métrica, ideias e rimas. Como ele é produtor também – tinha acabado de lançar o EP “Amostra com Um Resultado Satisfatório”  – ele começou por pilha pra gente fazer um disco meu, com participações. Então planejamos reunir umas músicas e poesias e comecei a gostar da proposta. Era pra ser só umas cinco faixas, mas foi ganhando corpo e vida. Aí vai florindo, nascendo ideias novas, quando vi estava com 18 faixas.

O disco foi gravado no estudio N, com o Nefasto, depois finalizado no estúdio Casa, com DJ Crick.  “Universo Preto Paralelo” traz algumas participações que considero importante, como Denna Hill, Robson Dio, o Próprio Raphão, James Banto, GG, do Caos do Subúrbio, e Cristina Silva. Não considero um trabalho solo, pois, sozinho, eu não teria conseguido colocar na rua.  Várias pessoas estão envolvidas. Sem elas não teria rolado, como Axé Produções, Kilombagem, Samba de Terreiro, Usina Preta, Fórum de Hip-Hop do ABC e várias pessoas que somam.

CHH: E como está sendo a repercussão?
Ba Kimbuta:  Estou bem contente. Conseguimos fechar dois lançamentos pesados: um no Quilombaque, em Perus, com um puta axé e identificação das pessoas. A capa é de Leadro Valquer, um poeta, músico e artista plástico que deu uma contribuição monstro, junto com o olhar de Edson Ike que fechou a arte gráfica de uma forma fina, cheia de qualidade. As pessoas estão reconhecendo isso, porém algumas polêmicas já começam a  aparecer. Tipo: será que ele quer montar uma República Preta? O que ele está querendo? Com certeza irão aparecer várias críticas, também acho importante. Estou aberto pra recebê-las, desde que tenham contexto.

Aqui sempre foi um problema os pretos se afirmarem. Isso incomoda, pois não tem massagem, nós não criamos isso, já nascemos nisso. Estamos falando de ter acesso, de comer bem, viver bem, ter qualidade de ensino para nossos filhos, ser respeitado. Se eu optar ser de uma religião de matriz africana, parar de tomar tapa na cara de policial: ele não pede licença pra entrar na favela, chuta sua porta. Por que não falar, não denunciar? É isso, acho que minha arte é pra isso: formar opinião, mas to ligado que inimigo é de graça! Sei que isso tem um preço!

CHH: O que você vê na cena atual que te agrade e desagrada?
Ba Kimbuta: Bem, é preciso entender  o cenário do movimento como um todo. Consigo ver os saraus como extensão do movimento, pois estão ligados a poesia e, também, uma grande parte dos grupos de rap encontra espaço para recitar seus versos e suas  letras. Esse espaço possibilita o contato com a literatura. Isso é cabuloso num país onde as pessoas – inclusive eu –  não são educadas para ler, mas vejo que são várias articulações e eventos espalhados nas quebradas, incluindo todos os elementos, porém a visibilidade é menor que antes.

As coisas mudaram bastante, a relação com a tecnologia e o virtual é importante, mas se não tomar cuidado, distancia as pessoas. Também precisamos estar mais próximos um do outro, essa correria pela sobrevivência nos afasta bastante. Em relação aos grupos que estão na grande mídia, vejo varios ângulos positivos por exemplo:  Emicida é um cara que traz vários questionamentos e ideias de uma forma contundente, não tão direto, mas comunica demais. Ele trouxe inovação na métrica e conseguiu expandir rapidamente.

Não podemos cometer o equívoco em dizer que os caras que estão chegando agora são artistas que estão no corre uma cota, passando os mesmos perreios pra fazer o som chegar. Também não podemos deixar de fazer uma crítica construtiva sobre alguns grupos que estouraram agora: eles não representam mais uma ameaça e ainda cometem a besteira de dizer que estamos ultrapassados  por citar as atrocidades  que o capitalismo nos deixou.

CHH:  O que anda ouvindo?
Ba Kimbuta: Escuto várias vertentes da música negra. Gosto de Djavam, Cartola, Ivone lara, Candeia Mestre, escuto bastante MidNite, Erykah Badu, Dead Prez, Morodo, GOG, Versão Popular, Criolo, Emicida, Elen Oléria, Curtis Mayfield,  Baden Powell, Jill Scott, Bezerra da Silva, Raphão, Qi Alforria, Marechal e ai  vai …

CHH: O que pretende fazer depois deste CD?
Ba Kimbuta:  Fizemos dois lançamentos bem sucedidos um no Quilombaque, em Perus, e outro no espaço cultural Gambalaia. Temos o lançamento do videoclipe da música “Tenta me catar” fechado para o dia 25 de julho. No Sesc Santo André, onde somos convidados do Sarau da Ademar, através de uma irmã nossa chamada Lids, que está somando com a gente de varias formas. Passando essa fase de lançamentos, pretendemos rodar os saraus em São Paulo, fazer mais um lançamento na Bahia, em outubro, e tem uma possibilidade de irmos para o Haiti, no começo do ano que vem.

CHH: Deixe um recado para os leitores do Central Hip Hop.
Ba Kimbuta: Gostaria de agradecer todas as pessoas envolvidas no projeto que não são poucas. Um salve para a Axé Produções e ao Quilombagem, que me fortalece. Quero dizer que se falo sobre desigualdade social, racismo, violência contra a mulher, e extermínio de uma juventude preta, é porque vejo sinto e vivo isso. Nossos motivos pra lutar ainda são os mesmos e não me peça para amenizar,  minha luta é com causa e coletiva, esse disco não é solo é coletivo, solo é a terra. O foco, o desafio é se apropriar do conhecimento para fazer uma arte com musicalidade emoção e técnica, sem deixar possibilidade de revanche para o opressor!

 

 Confira e faça o Donwload do Cd Universo Preto Paralelo

Fonte; http://bakimbuta.wordpress.com/

Ike Banto

Ike Banto, mora em Campinas, interior de São Paulo, atua no Fórum de Hip Hop do Interior, autodidáta é entusiasta e usuário fervoroso de Software Livre, trampa na área de tecnologia a 05 anos, como designer, diagramador e web-designers freelance, porém a meta e trabalhar com animação 2d e 3d (eu chego la!!! :) ), no Kilombagem que participa desde de 2009 cuida da infra em Web do grupo.

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